“Há pessoas para as quais o crepúsculo é o prolongamento da aurora.”
Machado de Assis.

Pode soar pretensioso iniciar um texto com uma citação do bruxo. Mas Machado inspira. Neste caso, me lembra os que percebem o ocaso como uma nova oportunidade solar de vida. Ou os que percebem com absoluta negação. Coisas de Machado, que adora deixar o leitor em dúvida.

Sempre contemplei o pôr do sol no Arpoador, sem cair no ridículo de bater palminhas, porém, seu avesso, o sol nascendo no mar, me provocava angústia. Não pela leitura de um futuro surgindo belo atrás do horizonte, mas porque objetivamente a imagem me dizia que passei uma noite sem dormir. E odeio varar noites em claro.

Perceber a beleza do ocaso é um desafio e tanto. Pode doer. Ou pode oferecer a sensação de uma vida bem vivida caminhando lentamente para deixar mais robusto seu portfólio de existências, seu acúmulo de experiências ricas, suas boas lembranças, suas dores e delícias, seus afetos, seus amores e merecem ser celebradas com prazer por você ter cumprido uma nobre missão particular. Ou ainda estar cumprindo. Sinto isso. Como se depois do pôr do sol viesse uma lua prateada iluminando a vida com outras cores. É o crepúsculo tão bem finalizado no título “Confesso que vivi”, de Pablo Neruda.

Diferente de Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder, um dos diretores e roteiristas que mais colecionaram obras-primas. No filme, cabe uma infinidade de reflexões. A começar pela primeira cena, que mostra a placa de uma das ruas mais chiques do mundo, a Sunset Boulevard do título original em inglês, mas que na verdade, reveste uma indisfarçável decadência, dado ao número de moradores suscetíveis ao apagar dos holofotes.

Em 1950, Norma Desmond (Gloria Swanson) é uma delas. Inconformada com seu outono de fama e esplendor, recebe o endividado e fugitivo de credores Joe Gillis (Wiliam Holden), roteirista fracassado, que espertamente percebe no drama de Norma uma oportunidade de ganhar dinheiro. E desembesta a escrever o roteiro, junto com a estrela opaca do cinema mudo, do filme que seria o prolongamento de sua aurora. Olha Machado aí de novo.

Billy Wilder sempre teve uma atração especial por personagens em deterioração humana, mergulhando e expondo o psiquismo doentio de tipos que povoam as oscilações do estrelato que Hollywood provoca. Norma, acreditando ainda ser uma diva, apresenta surtos de estrelismo extremos, os chamados chiliques, o que faz Joe Gillis perceber, em troca do conforto de uma mansão glamourosa, a roubada em que se meteu: escrever um roteiro para uma doida de pedra recuperar seu prestígio derramado.

À luz de que Hollywood não é um paraíso terrestre, a insanidade de Norma é compreensível, já que tem lampejos de lucidez que apontam que sua vida de estrela já era. Porém, seu psiquismo doentio, beirando a infantilidade, não lhe permite processar a realidade que bate à sua porta. Mas há um mordomo. Não o clássico culpado por todos os crimes no cinema vulgar, mas Max Von Mayerling (Erich von Stroheim), que lhe ameniza os delírios e lhe afofa a cama para suportar o pesadelo real da finitude que a rodeia. E segue o tormento de Joe, escrevendo algo que ele mesmo considera uma porcaria, tanto quanto a armadilha em que se enrolou.

Há também a presença de Cecil B. DeMille e Buster Keaton, que entram na história como personagens vividos pelos próprios, só para dar molho à vida louca de Norma, àquela altura, passada do ponto. Longe de mim disparar spoiler, mas um toque genial e irônico de roteiro devolve os flashes e a notoriedade que Norma tanto desejou.

A crítica amou. O público também. Crepúsculo dos Deuses foi indicado para onze Oscars, tendo levado três. Em 1998, foi nomeado o décimo segundo melhor filme produzido nos Estados Unidos em todos os tempos pelo American Film Institute. Teve adaptação magistral na Broadway em 1993, estrelado ora por Elaine Paige ora por Glenn Close (dois luxos!), com música de Andrew Lloyd Weber e ainda ganhou o Tony Award de Melhor Musical. Definitivamente, um filme obrigatório aos que amam cinema e relações humanas, um clássico que transcende às telas e chega às reflexões mais contemporâneas.

Domingo dia 29, depois de votar, voltei ao meu isolamento necessário e assisti a Crepúsculo dos Deuses novamente no meu bom e velho DVD (há no Telecine Cult e Apple TV). Sei lá. Alguma coisa me dizia para revê-lo, naquele dia.  E fechados os resultados das eleições municipais, fui flechado por um pensamento.

O ocaso chegou para muitos políticos que um dia estiverem sob holofotes. Uns ainda vagam por aí. Outros, mesmo sem brilho,  sentam em cadeiras importantes, querendo continuar sentados. Outros, mais distantes embora próximos, se recusam a levantar delas. Qualquer semelhança com Norma Desmond pode ou não ser uma coincidência, dependendo do entendimento e das crenças de cada um. Mas uma coisa é certa: eles não são deuses.

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