Estava à toa na vida, o meu amor me chamou para ir ao cinema. Pena que o filme era deprê: “O Professor Substituto, de Sébastien Marnier, uma produção francesa na qual os fantasmas do mundo de hoje aparecem disfarçados de símbolos sutis auto-destrutivos, poluídos, suicidas, amargos, mas nem por isso deixam de esfregar na nossa cara o desalento tóxico universal que nos aprisiona. Pouco me acrescentou, como se necessário fosse tomar consciência dos zumbis que nos assombram na vida real.

Cotidianamente, somos estapeados por pensamentos terraplanistas, ditaduras que dizem nunca ter existido, a crença no esquerdismo de Hitler, a apologia à tortura, a fantasia de ser sniper, a sordidez contra mortos pela ditadura, o ódio pelo contrário, a cegueira com o meio ambiente, o deboche com o índio e o nordestino, a fobia freudiana de gays, o gesto da arminha com os mãos, a falta de delicadeza com o ser humano, o pavor da mídia livre e da cultura, a ojeriza à inteligência, a ignorância programada pela educação, o desprezo pelo humanismo.

O bufão lá de cima de cabelos em chamas elogia a fantástica família em sua versão tupiniquim. “Where is Queiroz?” Isso ele não pergunta, mas tece loas ao provável embaixador brasileiro em Washington, um probo de fritar frango, já que hambúrguer foi provado que não era a especialidade da lanchonete onde o rapaz se formou em American Way of Life.

Sendo minimamente otimista, penso que a Humanidade caminha em zigue-zague, levando caldos de ondas de obscurantismo e iluminismo, tal como nos diz a História. Batuco Vai Passar de Chico Buarque, mas não sei se estarei aqui para ver o fim das trevas medievais em que nos metemos. E enquanto isso está longe de acontecer, procuro não curar a metástase dos tempos toscos com mais tristeza.

Pelo contrário, quando terminou a sessão do macambúzio filme francês, corri para casa para um detox na alma e encontrei o antídoto dos venenos que temos que engolir: rir.

Rir de bobagens. Rir sem compromisso. Rir sem culpa. Rir sem pensar se estariam rindo do que estou rindo. Rir como uma criança feliz.

Pois a criança que ora escreve ainda ri de um filme inesquecível da pureza da sua infância: Deu a Louca no Mundo, uma grande viagem ao início dos anos 60, quando tudo era inocente e esperançoso.

Trata-se de uma super produção que inaugurou o gênero de comédia épica, produzida e dirigida por Stanley Kramer. Estrelada por um imenso elenco de atores, com aparições relâmpagos de Jerry Lewis e Os Três Patetas, a produção se deu ao luxo de descartar Buster Keaton e Peter Sellers para dois importantes papeis. O filme conta as trapalhadas de um grupo caricato de americanos classe média, testemunhas de um acidente de automóvel numa estrada, que, ao socorrer a vítima, acabam sabendo de um segredo: um baú apinhado de dólares escondido num parque na fronteira da Califórnia com o México debaixo de um enorme W.

Eis o mistério. Que dábliu seria esse? Os personagens e espectadores se perguntam, já que a vítima literalmente chuta o balde antes de revelar detalhes mais precisos. Digo literalmente, porque o moribundo morre num derradeiro estertor “kick the bucket” ribanceira abaixo, a versão análoga do nosso bater as botas.

A partir daí, começa uma corrida insana e delirante para encontrar o tal W. Entre os insanos, Spencer Tracy, Edie Adams, Milton Berle, Sid Caesar, Buddy Hackett, Ethel Merman, Mickey Rooney, Phil Silvers, Terry-Thomas e Jonathan Winters nos papéis dos gananciosos, histéricos e desastrados competidores.

Uma cereja no bolo para os apreciadores de direção de arte, design gráfico e cinema: Deu a Louca no Mundo tem na abertura dos créditos (que você pode conferir abaixo) a assinatura de Saul Bess, que nos contempla com um brilho criativo de quase um curta genial, como se tornaram suas históricas aberturas de cinema.

O filme ganhou Oscar de Melhor Edição de Som, sendo indicado ainda para melhor fotografia, melhor montagem, melhor mixagem de som, melhor trilha sonora e melhor canção original. Recebeu duas indicações ao Globo de Ouro para melhor Comédia pela atuação de Jonathan Winters.  Em 2000, o longa foi considerado o quadragésimo melhor filme cômico dos Estados Unidos numa lista de 100 filmes feita pelo American Film Institute.

Tal posição no ranking não é lá grande coisa, mas para mim, que fez questão de revê-lo décadas depois, não importa, será sempre top. É possível que olhares maduros e compenetrados o enxerguem escapista, alienado, tolinho. O mundo não está para brincadeira. E daí?

Deu A louca no Mundo me transportou à infância dourada. Se não ri com sabor de drops Dulcora, sorri encantado hoje como um adulto discreto e nostálgico, que ia ao cinema só para ser feliz. E era mesmo.

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