Nostalgia é um quadro curioso. Relembramos aqueles títulos que nos eram comuns em nossa infância e que foram importantes na construção de algo em nós. Volta e meia revisito mentalmente obras que foram responsáveis por algumas de minhas características, sejam elas pontos da minha personalidade, modo de ver o mundo, gosto para certos tipos de temas ou até algumas brincadeiras de quando ainda era muito jovem. Mas revê-los pode se tornar algo perigoso. A memória afetiva pode ser quebrada pela maturidade da concepção artística própria. O que resultaria em uma frustração perante um quase-totem da juventude, ao notar que aquele filme que permanecera por décadas em nosso imaginário não chega perto do efeito que causara àquela época. Alain Bergala afirma que muitos filmes, se vistos após determinado momento da vida, não causam o mesmo efeito que se assistidos em nossos primeiros anos.

Para evitar uma auto-sabotagem, revisito – através destas palavras – uma das produções que mais vi na vida, mas sem tê-la contemplado novamente agora. Os parágrafos que seguirão se baseiam tão-somente nas cenas que, insistentes, continuaram a dançar em minhas lembranças, bem como várias de suas falas. “É o inferno!“. “É um belo terno, senhor Takashi. Uma pena estragá-lo“. “Esse chocolate é tão duro. Do que são feitas essas coisas?“.

Hans Gruber, a elegância encarnada.

Ahh, sim. Dublado, obviamente. Esse filme, sempre dublado. Trata-se de um quase super herói em plena Los Angeles sob perigo de um grupo terrorista alemão. Trata-se de Bruce Willis, no corpo de John McCLane, versus a perfeição em forma humana Alan Rickman, encarnando o sádico, mágico e inesquecível Hans Gruber.

O cenário é típico: uma festa empresarial de Natal em um grande e luxuoso edifício comercial, o Nakatomi Plaza. Quase que de penetra, John MacClane (no melhor estilo Bruce-sacode-geral), oficial da NYPD, participa devido ao importante posto assumido por sua mulher Holly (Bonnie Bedelia), na empresa. No meio da festividade, o grupo terrorista supracitado faz todo o prédio de refém para negociar ganhos aos seus membros. O que parecia ser tarefa simples esbarra na figura imperativa do Rambo das ruas, do Super Homem do asfalto, do Corpo Fechado profetizado: Joãozinho-moleque-piranha-McClane é o terror personificado em forma de lei e vai fazer da noite alemã um suplício.

Lembro-me que ele faz alguma referência ao Natal em seu diálogo nessa parte.

O filme não vai aprofundar personagens ou conflitos éticos, morais, psicológicos, históricos, whatever. O filme vai divertir. Vai atropelar o espectador como um caminhão sem freio com suas cenas explosivas de tirar o fôlego, perturbando-nos com o número de balas disparadas no Complexo do Alemão elevado ao expoente “n”. Melhor do que isso é a relação de gato e rato entre o protagonista e o antagonista – se falo dele, preciso repetir: Alan Rickman maravilhoso em toda e qualquer coisa que faz; ainda que um terrorista sem uma vírgula de construção vertical. O personagem é raso, direto e cru. Mas é encarnado por Rickman. Ou seja, não precisa de mais nada.

A amizade por voz, através de um walkie-talkie, entre McClane e o sargento Al Powell (nas mãos do carismático Reginald VelJohnson), um policial de rua que nota algo acontecendo no prédio e passa a dar suporte ao Johnny-segura-trolha, é um dos pontos de humanidade do filme. Ali conhecemos as histórias pessoais de cada agente da lei; momentos em que deixam de ser máquinas de destruição do inimigo e passam a ser homens. Mas nem comece a imaginar uma musiquinha incidental no melhor estilo ET-telefone-minha-casa que vai amolecer o espectador. Logo, logo, a porrada estanca e a bala come solta de novo. Hans Gruber e o Karl-shizten-fasten (como eu sempre ouvi o comando de Gruber para seu capanga atirar nos vidros) não deixarão Johnny-O’ em paz. Ou vice-versa. Não à toa, a evocativa chamada do poster do filme (vide publicação) é: “Doze terroristas. Um policial. As probabilidades estão contra John McClane… mas é esse o jeito que ele gosta”. Qué-isso, hein, chapa!

Basicamente todo passado dentro de um prédio, com concreto explodindo, vidro quebrando e terno manchado de vermelho, John McTiernan é responsável por dirigir um dos filmes que mais vi na vida. Talvez não tanto por sua qualidade, mas por ser divertidíssimo e ter estado à disposição em tempos que o tempo estava ao meu lado; naquelas tardes que eu me permitia ficar de cueca deitado na cama (não que ainda não faça isso, mas com menos frequência) enquanto rebobinava a fita e revia os heróis e vilões mais familiares da minha infância. É evidente que, como falei, não é profundo, não se tira uma análise ou debates ricos, nem se discorre acerca das técnicas; mas é, da mesma forma evidente, que a ação ali expressa é incrível. Não à toa, o nome Duro de Matar tampouco sugere qualquer coisa que não isso.

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