Lá estava eu com meus 9 aninhos, em 1992, quando pego uma fita VHS que meu pai mandou dos EUA para mim e coloco no vídeo cassete. Era um filme sem legenda e eu não falava inglês, mas assisti avidamente e compreendia todo o contexto.

Muito além daquilo que via, era o que eu sentia. O pequeno Ryan Fields era uma criança muito excluída, sem amigos, que vivia no seu mundo solitário, vítima de bullying e brincando com a pequena sereia em casa com a minha irmã. A palavra que mais me definia era “medo”. Medo de tudo, de ter que interagir com outras pessoas, medo de não ter amigos, medo de ser ridicularizado, medo dos professores e colegas de sala, medo de ter medo.

No entanto, o que mais ansiava era poder interagir, ter amigos, ser “normal”. Não foi por falta de tentativa, mas infelizmente, nitidamente, eu não estava equipado socialmente para isso. Algo me faltava. Inúmeras situações marcaram minha vida negativamente e moldaram esse ser que vos escreve. Quanto mais tentava interagir, mais reforçava meu isolamento e sentimento de não pertencimento. Como já bem disse Henry Rollins:

“You think you’re gonna live your life alone

in darkness and seclusion

Yeah I know

you’ve been out there

tried to mix with those animals

and it just left you full of humiliated confusion

But the feeling of loneliness never leaves you

it haunts you everywhere you go”

Com o passar do tempo isso permaneceu igual até que minha vida mudou radicalmente em 2002, ano que conheci Dinaldo Medeiros, meu mentor e professor de geografia. Vale ressaltar que esse foi o ano que conheci o Rene Vettori também. De lá para cá abracei esse ser o outcast que virei. O que antes me era imposto socialmente, agora eu praticava deliberadamente. Não era convidado para nada, agora não vou mesmo que me convidem. Confesso que isso gera alguns problemas na minha vida atual, como bem já me apontou Gustavo, o viril, que eu ajo e penso como eu acho que as pessoas me viam, não como as pessoas me veem. Hoje não sou o cara que ninguém queria por perto, hoje sou o cara que não quer ninguém por perto, antes o excluído, agora o antissocial.

O único que o compreende 🙂

Isso se reflete na minha aparência e gostos. Se estou me sentindo normal, algo está terrivelmente errado. E aqui chegamos ao nosso Nostalgia de hoje. Edward (Johnny Depp) é um ser artificial construído por um cientista (Vincent Price) que era dono de uma fábrica de biscoito. Infelizmente nosso cientista morre antes de acabar seu projeto, deixando-o incompleto fisicamente – ele tem tesouras no lugar de mãos – e emocionalmente, com dificuldades de compreender comportamentos sociais.

Edward vivia isolado em sua mansão, seu mundinho, onde ele poderia ser ele mesmo, mesmo que sozinho. Mas algo está para mudar quando Peg (Dianne Wiest) o encontra, ao entrar na sua mansão para tentar vender seus produtos. Em sua primeira fala no filme já sou conquistado imediatamente (quando revi com legendas).

“Don’t go… I am not finished”

Ele era eu, em um mundo cinematográfico que era uma alegoria para minha vida, anseios, medos e experiências. Esse longa cimentou muito em mim. Desde a milf Joyce (Kathy Baker), passando pela temática cinematográfica fantástica, caricata e crível, chegando às representações obscuras de nosso mundo. Obrigado, Tim Burton.

Edward é apresentado à vida no subúrbio, uma vida que todos consideram a padrão, normal. Ele tem o vislumbre de um mundo que anseia. Logo percebemos como os que não compartilham de nossas experiências nos enxergam. Frases como “tenho um amigo que pode te ajudar”, são constantes, dando a entender que ser assim é algo a ser evitado, mesmo sendo algo que nos diferencia.

Obviamente que ele atrai muita atenção da vizinhança e praticamente vira uma celebridade. Tudo o que eles conseguem ver é a sua excentricidade, o que é de fato muito atraente. Edward passa a ser usado pelo o que o diferencia, a princípio, por habilidades desenvolvidas por anos tendo que viver com tesouras em vez de mãos. São muito apreciadas no filme como forma de arte, o paisagismo e o corte de cabelo em pessoas e cães que ele faz. Mostrando que “You are different from the rest. Your heart is pure! Rejoice! The broken are the more evolved. Rejoice!”(Fragmentado, 2016).

A beleza que surge de ser diferente.

Obviamente que isso será explorado por pessoas inescrupulosas, que tiram proveito de nossos anseios de pertencimento. Eis que conhecemos Jim (Anthony Michael Hall), nosso antagonista. Ele incorpora tudo o que desprezamos e, paradoxalmente, também, o que queremos ser. Ele é um babaca que aproveita toda e qualquer oportunidade de humilhar e tentar se mostrar superior ao Edward e, ao mesmo tempo, é o cara popular que é namorado de Kim (Winona Ryder).

Kim chama a atenção de Edward, que se apaixona de forma platônica. Isso é usado contra Edward, que ao achar que está fazendo algo para Kim, na verdade, está sendo usado por causa da sua habilidade de abrir fechaduras que suas mãos de tesoura permitem. Agora o diferente é visto não como exótico, mas como um problema, um outcast que precisa se adaptar ao nosso mundo, caso contrário viverá isolado. Kim… Kim…

Sem querer entrar em detalhes do terço final, temos várias atividades mostrando quão inapto Edward é para viver nesse subúrbio e quão inapta são as pessoas para aceitar e lidar com as pessoas que fogem do padrão social de comportamento ou aparência.

O filme culmina com uma das cenas mais lindas e que sempre me emociona. A cena da “neve”. Edward também sabe esculpir gelo e nesse processo pequenas partículas de gelo voam formando uma mini nevasca no qual Kim dança ao som de uma das mais belas trilhas sonoras de cinema, “Ice Dance” de Danny Elfman. Essa bela cena é interrompida subitamente pela chegada de Jim, o babaca, e Edward ferindo Kim sem intenção.

Ele foge para sua mansão, totalmente transtornado com esse mundo que não o aceita e lá temos o embate final com Jim, que você, caro leitor, verá por si só. O filme termina como começa, com a Kim idosa falando para sua neta da origem da neve e como aquele ser incapaz de viver em sociedade ainda habita seu coração, desejando que ele ainda se lembre dela.

Tim Burton nos presenteia com esse belo conto de sutileza infantil, mas com tons obscuros da natureza humana. Sem dúvida um dos meus filmes favoritos do meu diretor favorito.

Dedico esse Nostalgia, também, à Ana Carolina, nossa assídua leitora e crítica. Uma das pessoas que permite que nosso belo site funcione. De todos do MetaFictions, nosso humilde obrigado.

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