Quando se fala em máfia e gângsteres, qual o primeiro grande filme que lhe vem à cabeça? Não se trata de pegadinha. Nem quiz. Nem pesquisa. Apenas curiosidade. Dou-lhe uma. Dou-lhe duas. Dou-lhe três. Pronto. Imagino que a maioria pensou em O Poderoso Chefão (Francis Ford Coppola, 1972). É possível que alguém tenha lembrado de Scarface (Brian de Palma, 1983), Os Bons Companheiros (Martin Scorcese, 1990) ou Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994).  Ou mesmo algum que eu tenha esquecido. Mas se você pensou em Era Uma Vez na América, sob influência do título desta crônica, lamento discordar: não é um filme de máfia.

É um filme sobre amizade e lealdade onde a máfia e seus crimes desembestados são lençóis sobre os quais se deita uma bela – e violenta – história de amigos. Claro, com todos os ingredientes que perambulam, às vezes aos tropeços, pelos caminhos e atalhos da amizade profunda. São eles paixões, traições, vinganças, decepções, reconquistas, fidelidade, companheirismo.

Era Uma Vez na América foi o último filme de Sérgio Leone. Ele se dedicou 13 anos ao projeto de transformar em épico o livro “The Hoods, do ex-gângsster e informante Harry Goldeber, que se acobertou do pseudônimo Harry Grey – deve ter tido boas razões o autor para ser precavido.

A paixão de Leone pela história de Harry – seja qual for o sobrenome – era gigantesca a ponto de, acreditem se quiser, recusar à Paramount dirigir o primeiro O Poderoso Chefão, só para não desviar sua atenção obsessiva pela ideia que lhe fisgara. Sorte a nossa. O cinema ganhou dois super diretores comandando dois super filmes, sendo que no caso do Coppola multiplicado por três.

Abre parêntese: até hoje discute-se qual é o melhor dos três Chefões.  Cá com meus botões e meus batimentos cardíacos, sinto que é um filme só, daqueles de se varar a noite na frente da tela, seja qual for a tela. Talvez uma ressalva sobre um certo exagero de escaramuças de roteiro no terceiro, mas nada que impeça que o blue-ray dos três more na minha cabeceira. Tanto quanto mora na mesinha da sala um livrão de uns três quilos sobre tudo da trilogia. Fecha parêntese.

Tantos anos debruçado no que seria apontado por muitos como sua obra prima fizeram Sérgio Leone considerar e desconsiderar uma via láctea de atores e atrizes para viver personagens de impecável construção. A conferir: Gérard Depardieu, Richard Dreyfuss, James Cagney Tom Berenger, Paul Newman,  Dustin Hoffman, Jon Voight, Harvey Keitel, John Malkovich, John Belushi, Brooke Shields e Claudia Cardinale. Imagine se todos tivessem passado nos testes. A própria escalação definitiva do elenco contribuiu para um terço do brilho da obra: Robert de Niro, James Woods, Elizabeth MacGovern, Treat Williams, Tuesday Carolm e Joe Pesci, só para citar os adultos. O brilho dos dois terços restantes atribuo ao roteiro e à trilha.

Era Uma Vez na América não é um filme fácil. Tem versões em 229 min e 139 min. É lento e denso nos primeiros minutos. Camadas e camadas de tempo se superpõem, e nelas habitam personagens em várias idades e espaços, que vão e vêm, morrem e renascem, sem que o espectador pisque os olhos, ou sinta formigamento nos glúteos. Há quem possa dizer que é meio chato no início, mas Era Uma Vez na América é para fortes, sensíveis e resistentes.

A história dos 4 meninos de origem italiana e judaica, crescidos praticando pequenos crimes no Lower East Side de New York, que se desenrola numa saga crimes de alta magnitude e organização, com sangue, amor, suspense, mistério, revelações e lágrimas, é um grande abraço em quem se deixa levar pela sétima arte em estado puro. Como se não bastasse, há Enio Morricone fazendo cinema para os ouvidos.

Este é exatamente o terceiro terço que faz o filme flanar dentro da gente, com destaque especial à cena embalada pela trilha, quando o semi despir de Deborah, a menina bailarina, é flagrada pelo olhar em frestas – e em festa –  de um dos meninos: Noodles, que, adulto, seria interpretado por Robert De Niro. Ali começava um grande amor.

Recentemente, um amigo presenteou amigos postando uma passagem emblemática, o que no mínimo me inspirou a rever o filme e escrever sobre ele. No cenário clássico da Ponte de Manhattan, a gangue mirim de amigos perambula feliz, quando dá de cara com um desafeto. Eles correm o mais que podem, se escondem onde é possível se esconder. Até que o menorzinho deles é alvejado por um tiro nas costas e cai. O adolescente Noodles arrasta o garotinho da rua para calçada. E o menino, na pretensão de ser um homenzinho que não era, tranquiliza o amigo – ou se desculpa: “Noodles, eu escorreguei”. E mais não digo.

Deixo o link da cena para que os que não conhecem o filme tenham o sabor de uma direção perfeita, de um timing perfeito, de atores perfeitos num cenário perfeito e com uma trilha perfeita. O cinema clássico em toda sua plenitude, mais do que perfeito, conforme a maioria dos críticos, cujo consenso enciclopédico sentenciou: “drama épico criminal de Sergio Leone, visualmente deslumbrante, estilisticamente ousado e emocionantemente assustador. E cheio de ótimas performances de Robert De Niro e James Woods.”.

Fico imaginando Sergio Leone, na eternidade reservada aos mestres do cinema, ouvindo algum crítico minoritário e severo questionando o quanto Era Uma vez na América é desconcertante, desnorteado e supostamente confuso aos mais lineares, tanto que sequer recebeu alguma indicação ao Oscar.  No que Leone responderia sutil, com o mesmo olhar derradeiro do seu menino: “Amigo, eu escorreguei”.

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