Acordo antes de o sol raiar. Tomo café pingado, iogurte com granola, uma fatia de queijo minas, metade de um mamão. Segue meia hora de detestável malhação caseira. Logo depois, barba, banho, bermuda, camiseta. De frente para o notebook, começo a trabalhar. Não sei se hoje foi ontem, ou ontem foi anteontem, ou já é amanhã. Lembro de “todo dia ela faz tudo sempre igual”, na pretensão recorrente de buscar inspiração em Chico Buarque.

Nestes tempos de quarentena necessária e cientificamente incontestável, assim se dá o início ao meu dia da marmota. A expressão que se refere ao simpático roedor vem de Feitiço do Tempo, cujo título original é Groundhog Day (O Dia da Marmota), um filme de 1993 em que o mesmo dia recomeça várias vezes para Phil Connors (Bill Murray), um insuportável e arrogante jornalista especializado em meteorologia.

Phil recebe a pauta de cobrir, numa pequena cidade da Pensilvânia, o Dia da Marmota, uma festa popular e tradicional na qual uma marmota sai da toca e, segundo a crença dos moradores locais, dependendo de como ela olha a própria sombra, o inverno será rigoroso ou não. Uma besteira. Especialmente para um ser humano soberbo como o jornalista revoltado que, pela quarta vez, tem que testemunhar um “rato” saindo do buraco. O que mais o irrita é que a marmota também se chama Phil e é tão meteorologista quanto ele.

Phil, não a marmota, mas o repórter, chega na véspera do evento com a equipe e dorme num pequeno hotel. O despertador toca uma música, ele se levanta, cumpre as primeiras rotinas básicas e sai para a vida. Encontra pessoas na rua, um amigo de infância que vende seguros e parte com a equipe para fazer a matéria. A marmota sai da toca, sob delírio do povo, até que uma nevasca o prende na cidade. Mais que isso, o prende no tempo.

Dia seguinte, no mesmo quarto de hotel, o despertador toca na mesma hora a mesma música, ele se levanta, cumpre as mesmas primeiras rotinas básicas e sai para a vida. Encontra pessoas na rua, o mesmo amigo de infância que vende seguros e parte com a mesma equipe para fazer a mesma matéria. A marmota sai da toca, sob delírio do povo, até que uma nevasca o prende na cidade. A mesma nevasca.

E assim repetem-se dias e dias sem sair do mesmo dia. Numa brecha da rotina, Phil tem um insight: percebe que não vai ter amanhã e, por conta da epifania, resolve chutar o balde e aprontar tudo de errado, tresloucado e sedutor, como não houvesse dia seguinte.

Mas eis que numa dessas inconsequências esbarra no amor – ah, o amor. Phil se apaixona pela produtora da equipe, Rita Hanson (Andie MacDowell), igualmente aprisionada pelo tempo. Só que Rita é encantadora e, mesmo enrascada na armadilha atemporal, mantém o bom humor e uma queda um tanto maternal para as estripulias infantis de Phil.

Mas Phil não é burro. Percebe o quanto Rita se apresenta interessante – ou interessada. E aproveita a repetição infinita do tempo para conhecê-la melhor, alimentar sua excitação romântica, corrigir a si próprio, entrar nos eixos do juízo, tornar-se apaixonável e enfim, conquistar seu coração.

Será? Só vendo. Ou revendo. Vai que, ao contrário do Dia da Marmota, o filme não se repete? Nunca se sabe o que o Cinema pode fazer com a imaginação da gente.

Apesar de levar o prêmio de Melhor Roteiro Original (Harold Ramis e Danny Rubin) no Bafta 1994 e ser considerado a melhor atuação de Bill Murray na sua carreira, Feitiço do Tempo não foi uma explosão de boa crítica quando do lançamento, mas enfeitiçou o próprio tempo e hoje é considerado um clássico, sendo cogitado a virar série. O enredo foi encenado como musical na Broadway e em Londres. Antes tarde do que nunca, em 2017, a BBC colocou Feitiço do Tempo em quarto lugar entre as 100 melhores comédias de todos os tempos. Pode ser um exagero. Nem acho que o filme nos tire o fôlego de tanto rir (já morri várias vezes com outras obras), mas seu argumento se eternizou como metáfora de coisas repetitivas que topamos pela vida.

E assim, numa pós cerimônia de lava louça cotidiana, dei um chute na mesmice da quarentena, inventei uma matinê deste clássico delicioso no meu bom e velho DVD. É uma fábula tão mágica que dá vontade de ver de novo, de novo e de novo.

Amanhã, quem sabe? Acordo antes de o sol raiar.

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