Ouviu-se um grito no tradicional Cinema Roxy em Copacabana. Não um grito escandaloso, inconveniente. Mas algo íntimo e secreto, eclodido nas entranhas de quem fora surpreendido por algo arrebatador.

Sim, confesso que gritei de êxtase por dentro, talvez um putaquepariu abafado por ruídos mais incontidos de uma plateia igualmente perplexa. Tal como um gol decisivo em final de Copa do Mundo, nos segundos derradeiros de uma prorrogação, o desfecho da trama de Golpe de Mestre é uma explosão de delícia e de um sonoro – paradoxalmente secreto – “eu te amo” ao bom Cinema.

Originariamente, Golpe de Mestre chama-se The Sting, que ao pé da letra significa picada no sentido de ferroada. Tudo a ver. Curiosidade: em Portugal o filme foi batizado de A Golpada, cuja prosaica tradução lembra meu neto no meu colo, depois de saciado por uma suculenta mamada. Mas questões pessoais e gáudios familiares não vêm ao caso.

O que importa é que Um Golpe de Mestre entra para a história do cinema como um dos roteiros mais bem arquitetados e lapidados já criados (David S. Ward é o pai da criança) e postos numa produção de primeira grandeza, pelo diretor George Roy Hill.

Trata-se da segunda obra prima do mesmo diretor que quatro anos antes já havia nos presenteado com o criativo western “Butch Cassidy and Sundance Kid”, que acrescentou ao bang bang habitual um chute no saco como finalização súbita de um duelo. O velho oeste lugar comum dá lugar à Bolívia, onde a maior parte da trama de desenvolve sob a trilha flutuante de Burt Bacharach e onde a engenhosa dupla de assaltantes de banco enfrenta um inusitado desafeto: a língua espanhola.

Maledicentes de plantão envenenam G. R. Hill de ter repetido a fórmula que deu certo em “Butch Cassidy” ao transportar a dupla de protagonistas Paul Newman e Robert Redford para “Golpe de Mestre” em plena na Chicago dos anos 30, onde o jogo, o turfe, a máfia e as trapaças ditavam o comportamento torto vigente. Pode ser que sim, pode ser que não: Jack Nicholson recusara o papel de Redford e o destino conspirou a favor da dupla de estrelas, já consagrada e muito bem-sucedida, na interpretação de personagens transgressores, encantadores e inesquecíveis. Um belo golpe de sorte de George Roy Hill.

Acrescente-se ao timaço o poderoso gângster, vivido por Robert Shaw, que mancava de uma perna o filme inteiro, não por capricho do roteirista, mas porque havia de fato torcido o pé nos primeiros ensaios. Pois este mesmo mafioso manco resolve se vingar dos vigaristas Henry (Newman) e Hooker (Redford) por trapacear um de seus capangas. Não deveria ter feito isso, em se tratando de dois golpistas natos, carismáticos e brilhantes. E mais não digo. Deixo uma ferroada na curiosidade nos apaixonados pelo bom Cinema, que podem encontrar o filme no YouTube, Blue Rays em resilientes livrarias ou raras locadoras.

Golpe de Mestre levantou 7 estatuetas no Oscar de 1974, sendo que o diretor G. R. Hill repetiu o gesto inaugurado com Butch Cassidy and Sundance Kid. E o suave pianinho tocante e suas variações também levou a trilha sonora de Marvin Hamlisch à merecida estatueta. Como se vê, o grito do Roxy ecoou na Academia. Talvez, em bom e legítimo holy fuck!

 

 

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