No meio da década de 80, três amigos – Steve, Ron e Brent – estavam na casa de um deles, em algum buraco quente no interior desértico de Nevada, fumando MUITA maconha, comendo doritos e fazendo uma maratona de filmes de ficção científica. Eles ficaram especialmente maravilhados com os épicos Duna O Império Contra-Ataca e O Retorno de Jedi. Estes dois clássicos absolutos do cinema têm uma coisa em comum: vermes gigantes malditos que atacam. Foi então que os três maconheiros pensaram: “E se a gente escrevesse um filme com vermes gigantes atacando as pessoas num cu de lugar como esse onde a gente mora?”

Voilá. Essa é a minha versão livre (e probabilíssima) de como nasceu a ideia para O Ataque dos Vermes Malditos, um filme que é tão B que sequer passava na Sessão da Tarde, mas no Cinema em Casa do SBT, alternando em geral com aquele filme de um sujeito que vai passar um feriado em Palm Springs e que nos permitia ver tetas às 2 da tarde de uma quarta feira na TV aberta.

Shai-Hulud, Exogorth e o Sarlacc.

A trama é fantástica. Val (Kevin Bacon) e Burt (Fred Ward) de alguma forma sobrevivem fazendo bicos em uma cidade com 14 habitantes chamada Perfection. Essa é a parte mais fantástica na minha opinião. Perfection tem 14 habitantes e, com isso em mente, quero que vocês parem de ler e pensem na quantidade de vezes em que vocês precisaram de alguém para instalar um ar condicionado, consertar uma porta ou aparar seu jardim. Pouquíssimas, certo? Agora imaginem se a quantidade de serviços que uma comunidade de 12 pessoas (e não 14 já que os dois estão contidos nesse número) exige seria suficiente para manter, ainda que na miséria, dois homens adultos. Pois é.

O Ataque dos Vermes Malditos em Brokeback Mountain.

Feito este parêntese, voltemos à história. Val e Burt aparentemente percebem esse cálculo que eu fiz aí em cima e decidem se mandar da cidade, mas são impedidos por uma série de eventos. Um velho bêbado morto de sede na metade de uma torre de alta tensão, um casal de coroa que some junto seu carro e um deslizamento de terra que obstrui a estrada à cidade grande mais perto. Depois disso, eles voltam para Perfection e lá vão lutar até a morte com os vermes malditos.

Aqui eu preciso fazer um segundo parêntese. O título do filme em português é um dos raros casos em que a tradução é melhor que o original, muito embora dê um spoiler leve sobre a trama, já que, inicialmente, acredita-se que há apenas um verme maldito. O Ataque dos Vermes Malditos soa MUITO melhor do que “Tremores” ou qualquer merda assim. Parabéns ao responsável!

O graboid.

Apesar de ter uma direção de atores sofrível e performances realmente ruins, O Ataque dos Vermes Malditos até que sobrevive a regra de que filmes considerados bons quando se tinha 10 anos em geral são uma merda se assistidos depois de adulto. Há alguma tensão, os efeitos práticos são realmente muito eficientes e o ar de filme B (ainda que inadvertido) diverte, em especial com o casal que parece ter saído diretamente de um episódio de “Preparados Para o Fim” no Discovery.

Preparado para o Fim.

O varão do casal, Bud (Michael Gross, uma espécie de versão genérica, menos talentosa, menos carismática e tão bigoduda quanto Burt Reynolds), é inclusive a estrela das nada menos que 4 continuações lançadas direto para DVD entre 1996 e 2015 e da mal fadada série de televisão lançada em 2003. Nesse meio tempo, além monstro original chamado graboid, inventaram ainda o Shrieker (ou gritador) e o Assblaster (ou explode-cu) – assim chamado porque uma explosão de seu próprio bozó permite que ele alce voo – como evoluções naturais da minhocona original.

Explode-cu e Gritador.

Certamente não é por acaso que a primeira versão é uma minhoca gigante, a segunda grita alto e a terceira explode o próprio cu, mas uma metáfora brilhante sobre sodomia.

Um reboot para a televisão está em produção e será estrelado novamente por Kevin Bacon (que está longe da série desde o primeiro) e Fred Ward (que está longe desde o segundo e é aquele cara que é o coadjuvante casca grossa de quase todos os filmes do mundo de 85 para cá e que estrelou o clássico filme-merda Remo – Desarmado e Perigoso), o que é garantia de mais um pouco de galhofa e certeza de que Hollywood está realmente sem ideias para fazer um reboot de um filme que sequer fez sucesso comercial quando foi lançado, apesar de ter arregimentado uma legião de imbecis que, assim como eu, ainda se divertem vendo esta desgraça.

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