Quando Milos Forman morreu em abril deste ano, fui inundado por uma enxurrada de lembranças de filmes inesquecíveis. A saber, sem juízo de ordem cronológica: “O Estranho no Ninho” (com Assista! aqui no site), “Hair”, “Procura Insaciável”, “Amores de uma Loura”, “Valmont”, “Amadeus”, “O Povo Contra Larry Flint”, “Goya” e “O Mundo de Andy”, sendo que este último revivi – e recomendo – por meio de um documentário meta linguagem, que mostra a absurda loucura com a qual Jim Carrey encarnou o próprio personagem do Andy Kaufman – um humorista para lá de excêntrico – , a ponto de endoidar o set, a equipe, os produtores e o próprio Milos Forman, que aparece bem no filme. Chama-se “Jim & Andy“, também resenhado aqui no site, e o coloco na lista dos imperdíveis, dica que dou aos cinéfilos, amantes do cinema, de ideias geniais, transgressoras, corajosas, incômodas, brilhantes e tais.

Lembro perfeitamente de quando e onde assisti a toda essa obra de primeira grandeza que listei acima. No entanto, um filme me escapou das primeiras lembranças. Trata-se de O Baile dos Bombeiros. Juro que assisti. Não sei onde, não sei quando, não sei como. Talvez nos primórdios do videocassete, quando aquelas máquinas mostrengas caseiras faziam nhéeeeemm, tlof, planct, tchuc e scaplam, e aí sim começava um filme com uns dois minutos de um longo texto em corpo minúsculo cujo título era “Warning”. Isso quando não mastigavam a fita e você tinha que devolver à locadora com multa. Enfim, priscas eras do cinema em casa.

Mas o filme em questão entrou no sótão da minha memória afetiva de modo definitivo, tanto que se escondeu debaixo de alguma almofada ou alguma tralha esquecida, tal um cachorro que virou panela. Exatamente, quando repenso em O Baile dos Bombeiros, alguns sentimentos me afloram.

Primeiro, sobre o filme em si. Sem cometer spoiler: numa aldeia tcheca no fim dos anos 60, a comunidade resolve homenagear um bombeiro que se aposenta promovendo uma festa. Mais não digo. A partir daí, ocorre uma sucessão de situações de me matar de rir intimamente, sem gargalhadas extravagantes, só prazer pelo humor sutil, contido, inteligente. Fragmentos de cenas me surgem agora, mas o que ficou mesmo foi o deleite de um filme delicioso.

O segundo sentimento é indignação, que me vem de uma curiosidade. O filme, como citado, é passado no fim dos anos de 60 na Tchecoslováquia, território que pertencia à extinta União Soviética. Exatamente por este pertencimento cultural, ideológico e territorial, Milos Forman foi convidado a se exilar pela polícia de farda e alma stalinistas, bem ao estilo “ame-o ou deixe-o”, que, traçando um torto paralelo, mandou para o exílio – ou para os porões torturantes – talentos brasileiros numa época sombria e estúpida da nossa História. Forman foi acusado de zombar do regime, ao satirizar a burocracia, a corrupção e a obediência cega e dogmática que imperava na Tchecoslováquia da época. Aos repressores ele dizia que só queria divertir as pessoas. Não convenceu os toscos.

Sorte do cinema, poderia ter congelado na Sibéria, mas Forman foi parar nos Estados Unidos, onde sua expressão crítica e criativa floresceu mais ainda, tanto que pode entregar ao mundo uma obra cinematográfica eterna. Arrisco dizer que ele e Kubrick foram os cineastas que mais variaram em temática e estilo, mas, sem exceção, deixaram em cada filme produzido uma marca de inteligência, registro de comportamento humano e uma lição de como encantar plateias tanto de cinéfilos radicais, quanto de simples apreciadores da arte, espectadores comuns, que se entregam ao cinema com amor e sem pinimbas contra ou a favor, sem academicismos prévios.

Tanto quanto “Hair”, “O Estranho no Ninho“, “Amadeus” e “O Mundo de Andy” emocionam, O Baile do Bombeiros mexe com o coração puro de quem quer ver cinema pela simples emoção de ver cinema e ainda perceber bons recados nas entrelinhas. Seja qual for a tela. Ou plataforma, para falar mais moderninho.

Uma pena que nunca mais soube deste filme. Procurei pelas locadoras quase extintas, pelas internets da vida, pelas tevês a cabo e nada. Só encontrei referências, traillers, comentários e alguns fragmentos.

Se alguém souber por onde andam esses bombeiros, por favor, me avisem. Estou sentindo muita saudade deles. E suspeito que as novas gerações que amam o cinema só pelo prazer de amá-lo vão me entender.

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