“Aconteceu há muito tempo. Há mais tempo do que parece. Em um lugar que, talvez, você tenha visto em seus sonhos. Pois a história que ouvirão agora aconteceu no mundo das celebrações. Você, provavelmente, já se perguntou de onde vem estas festas. Se não, já é hora de se perguntar…”

É uma decisão difícil selecionar algo preferido de Tim Burton, mas quando você pensa durante algum tempo, ás vezes você chega à uma conclusão como a minha, no caso, a de que O Estranho Mundo de Jack toma o posto de minha animação preferida. Esta obra ostenta o nome de Tim Burton em seu título original, “Tim Burton´s Nightmare Before Christmas”, o que causa certa (compreensível) confusão em algumas pessoas, pois não é o famoso cineasta quem dirige a obra, posto aqui ocupado por Henry Selick. Após muitas dúvidas e pesquisa, eu, finalmente, encontrei algo que esclarece toda a confusaõ. Além de produzir o longa, Tim Burton escreveu um poema do mesmo título do filme e é nele que a história e personagens do filme são baseados.

Confiram abaixo o poema original narrado pelo grandioso e legendário Christopher Lee, mais um dos atores fetiche de Burton:

Jack Esqueleto (dublado pelo instrumentista e famosíssimo compositor de trilhas sonoras Danny Elfman ao cantar e por Chris Sarandon nos diálogos) é o rei da cidade do Halloween, profissional em dar sustos e meter medo em crianças e adultos. Porém, nosso esqueleto se cansou da vida rotineira e somente se preparar para assustar pessoas virou exaustivo, repetitivo e padronizado (você, trabalhador infeliz, se identificará). Após duas canções marcantes (“This is Halloween” e “Jack´s Lament”, compostas pelo próprio Elfman), Jack caminha em uma floresta e encontra diversas portas com formatos que indicam diferentes celebrações anuais, até que, nosso protagonista, é atraído para uma porta com uma árvore brilhante e, ao abri-la, é levado para a terra do Natal. Jack acredita ter tido seu sonho realizado e decide fazer naquele ano o Natal ele mesmo.

No entanto, Jack tem uma grande desvantagem. O referencial que ele tem sobre o desejo das pessoas é o do Halloween, então seu Natal nada mais é do que um Halloween natalino. Esse conceito gera as melhores cenas da animação, assim como também faz Jack se enxergar de forma mais clara, mostrando que o que podemos oferecer e achamos o que as pessoas querem não corresponde à realidade. Um fato da vida.

A cidade do Natal.

Durante todo o filme somos apresentados à diversos outros personagens que se encaixam durante a própria história. Temos Sally (Catherine O’Hara), a boneca de pano, feita pelo Dr. Finklestein, uma alusão clara ao Dr. Frankstein, o prefeito da cidade que tem um rosto diferente para cada emoção e temos o Monstro Verde, no original “Oogie Boogie”, tecnicamente o verdadeiro vilão do filme e dono de uma das melhores músicas do longa. Isto sem contar o próprio Papai Noel. De resto temos ainda alguns figurantes como um diabo, vampiros, bruxas, um palhaço, lobisomem, monstro da lagoa negra e, acredite se quiser, Mr. Hyde! Todos caracterizados de maneira linda e seus movimentos são impecáveis na brilhante animação em stop-motion.

Mesmo Tim Burton não assinando o filme como seu, sua presença é claramente visível. Sejam os personagens ou os cenários, tudo carrega o traço característico de Burton, acima disso, junta-se a bela direção de Sellick, que fecha com maestria a visão final do filme.

A trilha sonora assinada por Danny Elfman completa o filme de maneira marcante. Além de dublar alguns dos personagens nas canções, este compositor construiu músicas que são marcantes, como esquecer de “This is Halloween”? E todas as outras, “O Lamento de Jack”, “O Que É Isso?”, “A Música do Monstro Verde”, são letras e melodias compostas com maestria, sem Elfman, o filme não seria a mesma coisa.

“I can take off my head, to recite Shakespearian quotations.”

Com um universo próprio de personagens incríveis, uma história envolvente e interessante, a adaptação do poema de Burton é de uma beleza sem igual. Henry Sellick produz esta obra-prima das animações deixando, nos olhares das crianças um certo pavor do filme e, nos dos mais velhos, um brilho de fascinação. Se você, nobre leitor do Metafictions, ainda não teve o prazer de observar esta obra, por favor sente-se no seu sofá e entre na Netflix, pois, depois de uma hora e dezesseis minutos, você acreditará no potencial criativo a que qualquer um pode chegar. E, sim, se pudesse dar uma nota, as claquetes estariam totalmente preenchidas.

Sugestões para você: