No apagar das luzes da década de 80, James Cameron – que já havia feito em 1986 Aliens – O Resgate e em 1984 O Exterminador do Futuro – escreve e dirige um longa-metragem que teve grande impacto em mim e na minha relação com meu pai.

Esse Nostalgia tem algumas peculiaridades. O longa, diferente de outros filmes que fiz para o quadro, está registrado na minha mente de forma muito diferente. Eu lembro de diversos fragmentos que acabei costurando em um filme que, apesar de próximo do real, não corresponde a totalidade da obra.

Isso se deve essencialmente ao horário que o longa costumava passar, geralmente à noite. Para uma criança antes dos seus 10 anos, que estudava de manhã, ficar acordado até as 22h era uma tarefa árdua. No entanto, como meu pai era um aficionado por filmes que envolvem aliens (perdoe o spoiler!?) eu tentava ficar acordado.

O resultado disso era que a cada 5 minutos de filme visto eu dormia 10. Só acordava quando algo extraordinário acontecia, pois meu pai me cutucava. Talvez, por isso, O Segredo do Abismo habite minhas recordações como um ótimo filme justamente por eu só recordar das melhores partes.

Mas sobre o que se trata o filme (o real)? Um submarino nuclear americano tem um encontro com um objeto submarino não identificado, o famoso OSNI, e perde seus instrumentos, afundando em um abismo. O governo americano envia um grupo militar à uma estação civil de pesquisa submarina para “resgate”. De cara vemos que as duas equipes, sendo a civil subordinada à militar, não se dão. A equipe militar, ainda na paranoia da Guerra-Fria, acredita que tudo de que ocorre de estranho só pode ser alguma artimanha russa e precisa ser destruído.

Eis que, em meio a coleta de dados, acontecimentos estranhos ocorrem. Do nosso ponto de vista, é muito evidente que está ocorrendo contato com seres, que mesmo que sejam da terra, são muito diferentes dos seres humanos, mas para os membros da estação ainda é uma incógnita. Daí para frente começa o conflito de agendas entre civis e militares, enquanto os contatos se intensificam. Vemos a curiosidade movendo os cientistas, que querem entender e estender os contatos, enquanto a paranoia militar assume a mente dos soldados que, embora em menor número, possuem armas e são hierarquicamente superiores.

A grande magia do longa repousa na habilidade de Cameron em conseguir tornar um ambiente na Terra algo totalmente alienígena. Em vez do vácuo do espaço, temos a implacável força do oceano, em vez de OVNIs, temos OSNIs e em vez de aliens, temos algo que não sabemos ao certo o que é, mas pelos contatos que se estabelece, nitidamente é uma raça de seres inteligentes.

Muitas cenas clássicas ficaram eternizadas, como os flashes coloridos que esses seres emanam, uma bioluminescência, e a manipulação das massas de água, em especial a gigantesca “cobra” que imita os rostos dos tripulantes.

Com um final extraordinário, talvez um dos mais bonitos em relação à contato entre seres inteligentes de diferentes espécies, O Segredo do Abismo constrói uma crítica à corrida armamentista, paranoia da Guerra-Fria entre as superpotências, e conquista uma posição de destaque no meu imaginário, inclusive depois de assistir novamente para escrever para vocês (dessa vez sem dormir!)

Provável que hoje em dia eu que cutuque o senhor Ditão, meu genitor, para acordar nos melhores momentos.

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