Se fosse para ter um título, esta crônica se chamaria “Meu despertar.” Explico: um amigo me perguntou qual filme me acordou para a paixão pelo cinema e depois de alguns instantes de reflexão, exclui os primeiros encantamentos infanto-juvenis – Jerry Lewis, Oscaritos, “A Guerra dos Botões”, “Deu a Louca no Mundo”, “A Noviça Rebelde”, entre outros que a criança que me habita ama até hoje – e pensei como adulto. E não pensei duas vezes: Midnight Cowboy.

A primeira vez que o assisti foi em 1970, quando aos 17 anos já me achava mais que um aborrecente. Estava recém-chegado de um intercâmbio nos Estados Unidos, onde morei 6 meses com uma família em Ohio, estudei numa High School típica e ainda dei uma fugida de 4 dias para conhecer Nova Iorque. Pronto. Olha Midnight Cowboy aí. Um menino bobalhão, vivenciando o interior do meio-oeste da América, deslumbrado com a efervescência cruel e adulta da Big Apple. Claro, o filme não é isso. É muito mais. Mas quando você se vê num filme, pretensamente você entra numa ridícula ego trip.

Caindo a ficha da maturidade, nunca me identificaria com Joe Buck, um paspalho do Texas – Ohio não me era uma terra de paspalhos, que fique bem claro -, crente ser um sedutor, que sonha em ser garoto de programa em Nova York e ficar rico. De cara, percebe que não é nada disso. Fica amigo de um tipo quase homeless, um deficiente físico marginal, doente, malandro e golpista das ruas de Manhattan. É o máximo que o texano consegue, levando seu sonho a definhar para um final infeliz.

Midnight Cowboy é uma pintura de cinematografia. A começar pelo roteiro baseado na obra de James Leo Herlihy. Registre-se a precisão da direção de John Schlesinger e a trilha sonora com preciosidades como Everybody’s Talkin, A Famous Myth, Joe Buck Rides Again, Midnight Cowboy, Fun City e Florida Fantasy, que até hoje moram na minha playlist da vida.

Ah, os atores: Dustin Hoffman e Jon Voight, uma dupla perfeita de protagonistas. Só eles não ganharam Oscar naquele ano, 70. O filme ganhou, o diretor ganhou, o roteiro adaptado ganhou. Injusta Academia, pensei eu na época. Dustin Hoffman fez por merecer, tanto pelo Ratso impecável, quanto pelo ator múltiplo que já demonstrava ser. Poderia receber pela interpretação perfeita do miserável doente, no mínimo, a estatueta da melhor tosse da história do Cinema.

Exatamente sobre esse despontar de talento multifacetado, um fato emblemático. O agente de Dustin Hoffman quis demovê-lo da ideia de interpretar Ratso. Hoffman vinha de um sucesso, “A Primeira Noite de um Homem”, no qual personificava um galãzinho-bonitinho-sedutor saindo da adolescência e entrando na vida adulta. Era um fofolete em ascensão no cinema e interpretar um sujeito feio, maltrapilho, sujo e aleijado, segundo seu agente, seria não só uma ruptura na carreira, mas a ameaça de um fim melancólico. Ainda bem que Dustin Hoffman fincou pé. Mas teve em seguida que topar fazer outro galãzinho bonitinho em “John & Mary”, par romântico de Mia Farrow, para não ficar com estigma do personagem manco e fedorento.

Melhor para o cinema. Hoffman emergia como um dos monstros sagrados, com sua versatilidade, suas performances espetaculares e seu nariz pontiagudo. Todo filme com Dustin Hoffman é acima de tudo um filme com Dustin Hoffman.

Sobre Jon Voight, a princípio, o papel não era para ele. O mais cotado seria Michael Sarrazin, que acabava de contracenar com Jane Fonda em “A Noite dos Desesperados”, um drama perfurante sobre os efeitos da Grande Depressão de 1929. Mas isso é outra história. O importante é que após os testes de elenco de Perdidos na Noite, o próprio Dustin Hoffman, já escolhido, sentenciou ao comparar as cenas-teste: “Quando olho para minha cena com Michael Sarrazin, olho para mim mesmo. Quando olho para a minha cena com Jon Voight, olho para Joe.” Bingo.

Mas deixo para o final a sobremesa, uma cereja no chantili de saborosa curiosidade. Numa sequência antológica, Joe e Ratso estão caminhando pelas ruas de Nova York, com o perdão da redundância, entupidas de gente. A cena é absolutamente natural. Schlesinger escondeu a câmera numa van a duas quadras à frente e através de uma portentosa tele acompanhou o passeio dos dois entre pessoas reais. Como eram tortos e marginais, não respeitavam sinais. E numa dessas, seguem pela faixa de pedestres sem se importarem com a rua. Um táxi freia em cima de Hoffman, que por ser tão incorporadamente Ratso, quase é atropelado e dá um tapa no capô do carro. O motorista se exalta e por pouco não vira um charivari. De tão real, a cena entrou no filme. E para a história das cenas improvisadas que fazem do cinema a verdade mais verdadeira sobre a vida, mesmo que ficcional.

Midnight Cowboy flui pelas minhas veias e artérias. Outro dia, tive o prazer de revê-lo. Continua o mesmo. Joe, Jon, Ratso, Hoffman, a trilha perfeita e eterna, tudo lá me fascinando. Talvez eu tenha mudado por conta do tempo e da vida. Natural que seja assim. Mas meu encanto por este filme continua intacto. Como sentiu o aborrecente que foi passar uns dias em Nova York achando que era gente grande.

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