Minha filhas têm mania de ranquear as coisas. “Pai, quais as suas 10 melhores atrizes?”. “Pai, quais os seus 10 melhores atores?”.” Pai, quais os seus 10 pratos preferidos?”.” “Pai, quais os seus melhores jogadores de futebol?”. “Pai, quais suas 9 melhores bandas?” Neste caso, elas já perguntam 9 porque sabem que a primeira sempre foi, é e sempre será os Beatles.

O mesmo acontece com Cinema. Na hora de responder a lista dos 10, embatuco em 9. Um eu tenho certeza. E a resposta sobre os restantes varia de acordo com o dia. Creio que há piores entre melhores, melhores entre piores, de acordo com o jeito que acordamos e passamos o dia. Digo a elas que há coisas boas no que achamos ruim, e coisas ruins nas que achamos boas. Assim é a complexidade da existência, do vinho e do ser humano. Mas, vida que se segue.

Mesmo sem ser inquirido, hoje acordei com a autopressão – sem que elas se comportem com a volúpia de Santa Inquisição em descobrir coisas sobre mim – de declinar uma lista dos meus 10 melhores filmes. E já percebi onde empaquei, tal como travo ao não abrir mão dos Beatles como uma das minhas – talvez a melhor de todos os tempos – bandas preferidas.

Confesso que demoro a pensar nos meus 9 filmes preferidos, já que um deles aparece súbito a todo instante em que sou levado a refletir sobre este ranking. Trata-se de Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, com Jack Lemmon, Tony Curtis e Marylin Monroe. Um filme que me rasgo de prazer toda vez que tenho a sorte de assistir ou mesmo lembrar que existe, e está acessível a quem deseja do cinema algo de delicioso e nada mais.

O argumento é saboroso: dois músicos de jazz, acidentalmente, testemunham o Massacre do Dia de São Valentim na Chicago de 1929 executado por gangsteres. Para escapar da perseguição, os dois se vestem de mulher, se maquiam e vão para a Flórida, onde se escondem em uma banda só de moças. Lemmon e Curtis passam a ser duas instrumentistas mulheres, caracterização e interpretação de troca de gêneros espetaculares, talvez comparáveis a “Tootsie” de Dustin Hoffman. No meio de um quiproquó digno de um Moliére, a personagem mulher de Lemmon desperta uma paixão obsessiva de um milionário americano. Tanto quanto a personagem feminina de Curtis se apaixona pela própria crooner da banda, que nada mais é que Marylin Monroe, com sua doce e provocante inocência. Imaginem o pano pra manga que dá.

Abre parêntese: num sarau cinematográfico na minha casa, passei o filme para um grupo de amigos diversos numa época em que a ditadura brasileira respirava por aparelhos. Uma das minhas amigas, egressa de um movimento de esquerda radical armado, se revoltou através de duas manifestações típicas de quem só enxergava o mundo a partir dos dogmas que lhe foram postos goela abaixo. Ela disse: “só esses estadunidenses cultuam um mito tão sem graça quanto essa tal de Marylin o quê mesmo?” Outra pérola da moça: “Como pode um ser humano que tem nariz, boca, olho, braço e pernas como eu falar uma língua que não é a minha?”. Fecha parêntese, porque não quero abrir polêmica sobre a idiotia que acomete grande parte da humanidade.

Voltemos ao filme em questão, pois. Quanto Mais Quente Melhor faz parte de um rol de obras primas de Billy Wilder, tais como “Irma La Douce”, “A Primeira Página”, “Crepúsculo dos Deuses”, “Sabrina”, “Se Meu Apartamento Falasse”, “Testemunha de Acusação”, “A montanha dos Sete Abrutes”, “Pacto de Sangue”, entre tantos. Você pode achar uns melhores que outros, mas há que se reconhecer que a obra de Wilder entrou para a história do Cinema, transitando entre a comédia e o drama com a mesma desenvoltura e o mesmo respeito ao espectador que só paga ingresso para se entregar a bons filmes.

Assim é Quanto Mais Quente Melhor. Um filme para o qual se entregar e se deixar inebriar pelas idas e vindas de uma trama genial, interpretada por atores geniais e conduzida por um diretor genial.

No auge da paixão do milionário pela personagem feminina de Lemmon, este, não aguentando tanto assédio, tira a peruca e grita algo assim: “Não me encha o saco. Sou um homem”. No que o milionário não se entrega: “Não faz mal. Ninguém é perfeito”.

“Nobody is perfect” soa mais bonito e se eternizou como um dos maiores arremates de diálogos da história do cinema. Quanto a isso, uma experiência pessoal. Sou redator publicitário e aprendi ao longo de 42 anos em Criação de Propaganda que a última frase de um texto deve ser matadora e definitiva. Isso vale para Cinema e literatura. Basta lembrar de Mr. Higgins dizendo para Elisa no final de “My Fair Lady”: “Elisa, onde estão os meus chinelos?”. A trama se conclui nessa frase matadora. A paixão dos dois já havia caído na rotina dos casais.

“Quanto Mais Quente Melhor” é um dos meus 10 filmes preferidos, minhas filhas sabem disso. Está encontrável em DVDs e internets da vida. Vale a pena conhecê-lo e se entregar às suas delícias. É até possível que alguém não curta. Afinal, nobody is perfect.

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