Por volta dos meus 20 anos, eu e meu amigo Bruno Stoppa, internacionalmente conhecido como “Intelig 23”, estávamos alucinados voltando de alguma noitada em algum canto imundo do Rio de Janeiro. Eu estava dirigindo e, antes que me julguem, isso faz uns 15 anos e era numa época em que beber e dirigir era não só aceitável como, para o pessoal que morava na Ilha do Governador como nós dois, também uma necessidade.

Pois bem, eram 6 da manhã. Bruno dormia de babar no carona e eu lutava bravamente contra o sono no volante do meu possante Peugeot 106 modelo 95. Em mais de uma ocasião eu fechei os olhos e os abri já quase raspando na mureta da linha vermelha ou subindo no meio fio. Eu só fiquei alarmado com isso, contudo, na 5a ou 6a em vez que aconteceu, pois eu abri os olhos e vi o ED-209 correndo a toda velocidade atrás de mim no retrovisor e escutei sua voz dizendo que eu tinha 20 segundos para parar de dirigir bêbado.

“Você tem 20 segundos para largar a arma.”

Foi só então que eu acordei meu amigo-irmão Bruno e pedi para ele ficar acordado conversando comigo de modo que eu conseguisse me manter desperto e conseguíssemos chegar a salvo ao nosso destino final. A isso ele me respondeu com um soco no saco que não só quase me fez bater o carro, como também acredito que tenha me deixado estéril. Entretanto, o soco me manteve acordado e a ele devemos a nossa vida.

Esta anedota da minha vida foi contada somente para se dar uma dimensão do quanto RoboCop – O Policial do Futuro, um clássico que neste mês completa 30 anos, faz parte da vida de qualquer pessoa que o tenha assistido quando lançado ou nas milhões de reprises na Tela Quente e afins. Não há criança criada nos anos 80 e 90 que não conheça a história de Alex Murphy e suas continuações com o moleque robô viciado em drogas e aquela em que arrumam um jetpack para o policial do futuro.

A história em si é bem simples. Em um futuro no qual a corporação OCP é a concessionária do serviço de segurança, Murphy (Peter Weller, cadavérico) é transferido para a delegacia da Velha Detroit, basicamente uma versão menor do Rio de Janeiro atual, na qual é pareado com Lewis (Nancy Allen). Em sua primeira incursão com sua parceira, ele é brutalmente assassinado por Red Forman de “That 70’s Show” (Kurtwood Smith) e sua gangue em uma das cenas mais violentas da história do cinema e que explica o porquê de toda a turminha do Winsconsin ter tanto medo de Red.

Como vocês podem ver acima, Murphy toma 50 tiros de escopeta à queima roupa, mas não morre, restando ao senhor Forman finalizá-lo com um teco na cabeça. Murphy é dado como morto e a OCP, empresa que é meio que dona da polícia, usa seu corpo para engendrar o projeto RoboCop, projeto este que só é levado à baila porque a produção do ED-209 é cancelada em função do bug em um protótipo que o levou a quase desintegrar um executivo da OCP  em uma cena de violência tão desnecessária quanto maravilhosa.

Era o que me esperava se o ED-209 me alcançasse.

Isso tudo leva à criação de RoboCop – O Policial do Futuro, cujo design deixa a área da boca vulnerável (e ninguém nunca pensa em atirar ali) e inclui também dois quadradinhos peitorais. Ele sai por aí fazendo a história do Cinema com cena icônica atrás de cena icônica.

Todo mundo lembra do RoboCop inventando a entrada USB, da esposa dizendo que o ama com uma carinha de safada, dele socando uma tv porque percebe que nunca mais vai poder dar um trato na patroa, daquelas armas gigantes que arrumam para tentar matá-lo, no maluco que vira gelatina e, finalmente, do tiro na piroca do estuprador através da saia e no meio das pernas da moça.

Tudo isso, contudo, forma apenas o caráter nostálgico da obra e, ao contrário de muitas que estiveram aqui no nosso Nostalgia, RoboCop é muito mais que só isso, permanecendo até hoje como um excelente e divertidíssimo filme de ação, mesmo com seus efeitos especiais datadíssimos (em especial nas cenas com o ED-209) e os muitos furos em seu roteiro.

E muito disso ocorre por motivos alheios à ação ou à violência, uma vez que o tom de sátira e o comentário social na obra são evidentes. A ação toda se passa em uma cidade onde a saúde, a educação e a segurança pública são totalmente privatizadas. No seu papel de concessionária de segurança pública, a OCP, por meio de seu vice presidente Dick Jones (Ronny Cox, o coadjuvante preferido dos anos 80), deliberadamente permite que o crime assole a Velha Detroit para que os valores imobiliários da região despenquem e ela possa então comprar a porra toda a preço de banana e então construir Delta City em seu lugar, lucrando, dessa forma, bilhões e bilhões de dólares.

Eu quero melão…

E isso é tão atual agora quanto sempre foi, em especial quando se analisa a questão pelo prisma dos flashes de notícias, anúncios e programas de TV que aparecem em pequenas e extremamente pertinentes pílulas durante todo o filme, demonstrando a alienação do povo ante o que efetivamente está acontecendo no mundo e a vontade em assim permanecer. Nada muito diferente do que ocorre hoje no mundo com as redes sociais e a grande mídia, na comprovação daquela verdade distópica Huxleyniana de que a censura não ocorrerá com a sonegação da informação, mas com um fluxo tão grande e contínuo delas que não se saberá mais no que acreditar ou sequer se importará com a verdade.

“Your move, creep.”

Paul Verhoeven fez sua estreia em Hollywood com este filme e seguiu educando toda uma geração com obras como “O Vingador do Futuro” e “Instinto Selvagem“, que certamente serão temas de Nostalgias futuros. Com sua obsessão por violência extrema, tomadas gráficas e total ausência de correção política, o diretor holandês colocou seu nome na história do Cinema com este clássico que será usado como referência para sempre. Torçamos que isso não queira dizer mais remakes como o de 2014 dirigido pelo brasileiro José Padilha em que o RoboCop não só não mata ninguém como sequer arranca o pau de alguém na bala.

RoboCop está disponível para streaming na Netflix e de graça no Crackle. Tenho certeza que se o sujeito cavucar deve achar o filme todo em qualidade péssima no YouTube também.

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