Nos primórdios da adolescência, quando me raiavam os primeiros fiapos de homenzinho e os hormônios anunciavam chegada breve, pelo menos umas três vezes me vesti de mulher. Explico: meu pai, tios e primos, quando se reuniam em festança de fim de semana numa casa à beira-mar, no auge da cantoria e da bebedeira, trocavam suas roupas por vestidos de esposas, filhas, irmãs e namoradas, enfiavam-se em perucas extravagantes e borrocavam-se de batom. Os homenzinhos também entravam nessa, pois sempre a farra acabava numa pelada sem fim na areia da praia. Isso me divertia.

Mas hoje, o distanciamento crítico da sabedoria do tempo, me sugere um machismo enraizado, ingênuo talvez, pois o “Bloco das Bonecas” (não sei era esse o nome) ridicularizava a mulher e os efeminados, com trejeitos, ui-ui-uis e ái-ái-áis, como caricaturas do que um homem jamais deveria ser. Enfim, divagações à luz dos tempos de hoje, sobre um tempo em que os armários estavam lotados. Acho que em muitos aspectos, a Humanidade evoluiu, apesar de retrocessos recentes assustadores.

Digo isso, ou melhor, pesquei esse tempo da memória porque acabei de assistir a Tootsie no meu bom e obsoleto DVD. Que filme delicioso! Que Dustin Hoffman perfeito! Que crônica genial sobre um homem que, por questão de sobrevivência, precisa se travestir, numa leve semelhança com “Quanto Mais Quente Melhor, já citado aqui com os louvores que merece.

Michael Dorsey (Dustin Hoffman) é um ator chato, irascível, perfeccionista, que, exatamente por isso, acumula portas fechadas na carreira. George Fields (Sydney Pollack, no caso, dublê de ator e diretor do filme) é o empresário de Dorsey e numa conversa franca avisa que ninguém vai contratá-lo por causa de seu gênio difícil. Dorsey tem um ataque, julga-se injustiçado, a ponto de lembrar que fez ótimos papeis de legumes num comercial de sopa. A partir do papo reto, resolve radicalizar para ganhar uma chance numa novela. E se transforma em Dorothy, uma atriz de papel secundário, mas que por seu desempenho perfeito, dá uma turbinada na personagem, a ponto de levantar a audiência da novela e ganhar uma notoriedade inesperada.

Mas, mesmo dentro da ficção, a vida real apronta. Apesar de guardar a sete chaves o segredo de sua verdadeira identidade masculina, Dorothy se apaixona por Julie (Jessica Lange), sua colega de folhetim. Pior: o pai de Julie (Charles Durning) se apaixona por Dorothy. Pronto. Está armado o bafafá que acaba por desembocar numa comédia romântica deliciosamente divertida e atrapalhada, mas com boas pistas de interpretações diversas sobre comportamento humano, homens, mulheres, misoginia e, claro, amor impossível.

A pensar. Dorothy é, aparentemente, uma mulher recatada, vestida até o pescoço, mas no momento em que explode, revela-se uma mulher forte, determinada, dotada de uma personalidade assustadora, que não se rende ao autoritarismo de um diretor machão, contrariando as tendências da mulher quietinha e bem comportada que a grande mídia apresentava nas novelas vespertinas norte-americanas. Daí o seu sucesso. A questão é: precisava uma “mulher” ser um homem forte por dentro do vestido para exercer o poder que toda mulher merece exercer? Fica a pergunta do século XXI esperando uma resposta do início dos anos 80, quando valores e consciências eram outros. Seria como indagar se Monteiro Lobato era racista ou não, por sublinhar a negritude de Tia Anastácia em seu Sítio do Pica-Pau Amarelo. Esclareça-se que Monteiro Lobato nasceu e cresceu no fim do período da escravidão. A resposta está no contexto.

Mas Tootsie não se propõe a polêmicas e debates de veias saltadas. O filme só quer divertir, missão que muitos carimbam como menor à arte cinematográfica. E é tão divertido na tela quanto nas histórias que rolaram nos seus bastidores.

Hoffman ficou chocado quando se viu travestido nos primeiros testes de tela, pois enxergou-se uma mulher feia, fora dos padrões estéticos vigentes. Quase pirou. No entanto, ator divino que é, criou sua personagem com um charme absurdo, a ponto de embaçar os limites entre uma mulher bonitinha e uma nariguda charmosa, carismática, atraente e poderosa. Seu envolvimento com Dorothy foi tão intenso que o próprio título do filme foi sugerido por ele: Tootsie era o apelido que sua mãe o chamava, quando bebê fofinho. Convenhamos, muito mais sonoro do que Litlle Dustin.

Registre-se mais um fato que só engradece o profissionalismo, o comprometimento e a humildade do grande ator: Meryl Streep, que contracenara com ele em Kramer vs. Kramer (1978), ajudou o amigo a encontrar o tom de voz ideal para Dorothy.

Outras pérolas de set: Tootsie foi o primeiro filme de Geena Davis e o indomável Bill Murray, que compõe um ator fracassado, amigo de Michael, não decorou uma fala sequer. Improvisou todos os seus diálogos. O filme também foi indicado a 10 Oscars, tendo só levado um: Jessica Lange, atriz coadjuvante.

Apesar de muita indicação para pouca estatueta, Tootsie entra para a história para quem ama ou faz cinema. Pode e deve ser revisto com diversos olhares: o de quem quer apenas rir, emocionar-se com uma história de amor enviesada, ou abrir discussões sobre misoginia, gêneros e empoderamento. Há pistas para todos os gostos. Até simplesmente fazer uma punção na memória e trazer lembranças de um fim de infância puro e divertido, com direito a saudade do pai, tios e primos.

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