“Seu pênis real está limpo, Alteza.”

Por anos, ouvir isso assim durante o banho da manhã era um sonho, uma ambição e, principalmente, um objetivo de vida. Não que eu quisesse que se referissem a meu pênis como real ou que me chamassem de Alteza. Eu, no alto de meus 10 anos, só pensava no quão maravilhoso seria acordar com alguém mexendo na minha bilola e essa era uma vontade compartilhada por todos os meus amigos da escola, já que era um dos pontos altos de nossas conversas no dia seguinte à Sessão da Tarde que passava Um Príncipe em Nova York, o que quer dizer que essa conversa era tida uma vez por mês.

Akeem e as esfregadeiras.

O longa conta a história de Akeem (Eddie Murphy), príncipe da fictícia nação africana de Zamunda. No dia de seu aniversário de 21 anos e logo depois de ter tido seu pinto escovado por uma gostosa seminua, Akeem reclama com seu pai, o rei Jaffe Joffer (James Earl Jones), que está insatisfeito com aquela vida de privilégios e, principalmente, com o fato de ser obrigado a se casar com uma mulher que ele não conhece e que passou a vida toda se preparando somente para servi-lo.

Após algumas cenas que servem somente para perpetuar os estereótipos africanos e para que sejamos agraciados com a mais perfeita cena de canto à capela da história da dublagem, o rei decide permitir que Akeem viaje o mundo para uma espécie de despedida de solteiro, quando na verdade Akeem quer mesmo é encontrar uma mulher que ame de verdade. Na companhia de seu primo Semmi (Arsenio Hall), putanheiro assumido, Akeem decide ir para Nova Iorque em busca do amor.

Instalando-se na parte mais ralé do bairro do Queens, Akeem e um relutante Semmi alugam um quarto chulé em cima de uma barbearia hilária e saem em busca do amor. Akeem quer encontrar alguém que o ame por quem ele é e não por seu poder e dinheiro, enquanto que Semmi me ensinou que é perfeitamente aceitável referir-se a peitos grandes como melões e é basicamente isso que eu penso ou falo até hoje ao ver tetas em minha frente.

Essa é a trama do filme, mas, francamente, ela é o que menos importa. O que importa aqui mesmo é que o filme pertence todo a Eddie Murphy e, em menor escala, a Arsenio Hall. Os dois interpretam 4 personagens cada, sendo Semmi e Akeem os menos engraçados dentre eles.

Além de Akeem, Eddie Murphy também faz o barbeiro mentiroso, o cliente judeu e Randy Watson, líder da brilhante banda Chocolate Sensual, que, mais uma vez, deu à dublagem brasileira a oportunidade de se consagrar com sua versão de Greatest Love of All de Whitney Houston:

Já Arsenio, além de Semmi, interpreta também mais um dos caras da barbearia, um pastor e uma mulher que propõe uma suruba bizarríssima aos dois.

Nessa época, Murphy e Hall eram os maiores comediantes negros em atividade nos EUA. Eddie Murphy já havia há muito tempo pulado do Saturday Night Live para o sucesso na telona com filmes como “48 Horas”,”Trocando as Bolas“, “Um Tira da Pesada” e “O Rapto do Menino Dourado“, boa parte dos quais em algum momento estarão aqui no Nostalgia. Hall, por sua vez, apresentava um dos talk shows mais populares dos EUA à época.

E isto aqui é evidente. São dois monstros da comédia no auge de sua forma, em especial nas cenas da barbearia em que três coroas negros e um judeu branco (inacreditavelmente personificado pr Eddie Murphy) discutem os mais variados e banais assuntos de forma hilária. Em uma dessas cenas, um jovem Cuba Gooding Jr. está lá sentado tendo seu cabelo cortado e tentando segurar o riso.

Hall, Cuba Gooding Jr., Murphy, Smith, Murphy de novo.

Além de Cuba, temos aqui também Vondie Curtis-Hall em um de seus primeiros papéis e a participação de um então desconhecido, Samuel L. Jackson, em um momento histórico em que ele profere seu primeiro motherfucker de incontáveis outros motherfuckers urrados por ele no Cinema.

Infelizmente, o filme se sustenta quase que como um Zorra Total, já que apenas esses esquetes valem a pena. O filme acerta sempre que a narrativa principal é deixada de lado em favor do pessoal da barbearia, do pastor, do chocolate sensual ou de qualquer outra coisa que não envolva Akeem e sua missão de conquistar Lisa (mal interpretada pela bela Shari Headley). 

Lisa é filha de Cleo McDowell (John Amos) e namora Darryl (Eriq La Salle), herdeiro da fortuna Soul Glo, uma espécie de creme de cabelo que dá aquela aparência de que o cabelo está molhada e que se tornou uma gíria de toda uma geração para aquelas pessoas que, como Darryl e sua família, sempre deixam uma marca no sofá ao sentar, tipo o Fred, hoje no Atlético Mineiro.

Just let your Soul Glow / Just let it shine through – https://youtu.be/CGrasobHcKA

Darryl, inclusive, estragou a minha experiência ao assistir Logan, já que ele, além de ser o Dr. Benton de “Plantão Médico“, é aquele pai de família que o Wolverine ajuda e depois se fode.

Atualmente disponível no Netflix em sua versão original e na versão dublada que é a que interessa a todos nós, Um Príncipe em Nova York é um filme terrivelmente irregular, com atuações pavorosas de alguns atores e hilárias de Murphy e Hall, mas cujo valor nostálgico é incalculável e só por isso já vale ser visto de novo.

Sugestões para você: