Como todos sabemos, a Austrália é um lugar inóspito. Qualquer um que já tenha ido ou que conheça algum australiano certamente já viveu ou ouviu uma história dantesca de como o próprio país tenta te matar a qualquer momento. Outro dia mesmo um amigo australiano que mora em Perth, uma cidade de mais de 1,5 milhão de habitantes, me mandou a foto de uma aranha maior que a cabeça dele que estava dando uma voltinha por sua cozinha. Caso você não tenha tido qualquer contato com isso, basta dar uma olhada aqui para entender do que estou falando.

Sabedor disso, ao me encaminhar ao cinema para ver um filme chamado O Acampamento, eu estava incrédulo diante de um casal querendo ir acampar no meio do mato da Austrália, país onde até as cidades querem a sua morte. Acabei indo naturalmente esperando um filme de terror gore/splatter com muitas mortes e sangue. E qual não foi minha agradabilíssima surpresa ao perceber que não é nada disso.

O longa conta a história de Sam (Harriet Dyer) e Ian (Ian Meadows), um casal de namorados apaixonados que resolve passar o revéillon em um acampamento à beira de um rio no interior não tão remoto assim da Austrália. Lá chegando, eles percebem que há uma outra tenda armada na mesma margem de rio, mas que não há ninguém nela. Aos poucos, contado em forma de flashbacks intermitentes, vamos descobrindo o que aconteceu com o pessoal daquela barraca.

Além de se valer de uma narrativa não-linear, Damien Power, diretor e roteirista desta que é sua estreia nas telonas, também acerta ao escolher apresentar seus personagens de forma muito natural e simples, de modo a construir a tensão deste thriller a partir única e exclusivamente da construção dos personagens. É aqui que conhecemos a presença arrebatadora e ameaçadora de German, em uma performance fortíssima de Aaron Pedersen

Cabe fazer um parênteses aqui porque na Austrália, assim como no Brasil, nos EUA e nos demais países que foram arregaçados pela colonização europeia, os nativos, largamente conhecidos como aborígenes, tem uma fama ainda mais forte de vagabundos, alcoólatras e inúteis do que os nossos índios aqui. E lá isto ocorre com mais força porque eles, sim, foram praticamente dizimados pelo branco inglês, de modo que os poucos que ainda restam, ainda que mestiços, sofrem preconceitos quase que sem qualquer proteção do estado. German tem sangue aborígine e é vagabundo, alcoólatra e inútil, o que talvez tenha causado algum incômodo em terras australianas, mas que é também balanceado pelo fato de que seu parceiro, Chook (Aaron Glenane) é branco do olho azul.

Mesmo sendo realizado em um lugar tão aterrorizante e letal quanto um bosque australiano, Damien Power sai do óbvio e nos entrega um excelente thriller que demonstra, mais uma vez, que o que há de mais fatal na natureza somos nós. Com cenas e escolhas violentamente ousadas, a Austrália traz novamente um filme com ambições menores do que os grandes blockbusters hollwyoodianos, mas, mesmo com orçamento reduzido, apresenta uma execução tão boa quanto ou melhor.

Infelizmente, este filme estreia em circuito limitadíssimo. Merecia coisa muito melhor.

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