Desde pequeno, os homens são ensinados a cuidarem das mulheres. Não faltaram ocasiões em que meu pai me obrigou a ajudar minha irmã com malas, tarefas e etc. Coisas que ela poderia e gostaria de executar sozinha. Mesmo fora do núcleo familiar, pequenos gestos como abrir portas, ceder lugares e sair em defesa de mulheres sem nem saber do que se trata são estimulados e bem vistos. O cavalheirismo é uma síndrome que faz com que um vínculo de dependência e possessão seja criado entre homens e mulheres. Fazendo com que um se sinta responsável pelo outro. Mesmo com tantas transformações culturais, esses hábitos e rituais continuam intactos e bem vistos seja no oriente ou no ocidente.

A paisagem pode mudar, prédios se erguem e desabam, apartamentos montam-se e desmontam-se. Mas a cultura continua lá. É isso que o diretor Asghar Farhadi mostra em seu brutal novo longa “O Apartamento”, filme desde já cultuado pela crítica e premiado como melhor roteiro e melhor ator para Shahab Hosseini no Festival de Cannes.

A trama conta a história de Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh AlidoostI), casal culto que encena uma peça e de uma hora para outra se vê obrigado a abandonar sua casa com um alerta de demolição, causado pela obra em um prédio ao lado. Assim terminam por se contentar em morar provisoriamente em um apartamento emprestado por um amigo. Um dia, ao voltar da peça, Rana é surpreendida com a entrada de um estranho no banheiro enquanto toma banho. O encontro faz com que ela se machuque seriamente e vá parar no hospital. Daí para frente, o que se segue é um espiral de agonia e paranoia que demostra fraquezas até mesmo nos mais pacíficos.

Rana fica profundamente traumatizada, mas não busca vingança, nem mesmo a polícia, apenas quer esquecer o fato e seguir adiante. Porém, seu marido se vê fragilizado e chafurda num ódio e desejo por vingança incompatíveis com um homem que leciona literatura.

Farhadi conta essa história sórdida sem nenhum exagero e nocauteia o espectador com uma realidade crua e nua. O sentimento de Emad é passível de identificação em todos nós, principalmente nos homens, o que demostra a cultura machista que relega os sentimentos das mulheres em detrimento do “mexeu com minha mulher, mexeu comigo” .

Com um suspense soberbo, que prende o espectador na cadeira até o fim e faz com que um mísero tapa e gesto de violência seja sentido, “O Apartamento” esmiuça o “materialismo machista” em 2 horas e 5 minutos de agonia e sofrimento. Cada fala e cada cena têm peso e carrega dor. Muito se deve às atuações sóbrias e precisas da dupla protagonista Shahab Hosseini e Taraneh Alidoostl.

O ritmo pode ser um pouco lento e a falta de glamour e beleza pode incomodar alguns, sem dúvida não é um filme que vai te fazer sair feliz e saltitante do cinema. Todavia, para que serve a arte se não para isso? Tocar na ferida, nos questionar de nossos mais singelos comportamentos. Fazer com que minha mãe sentada na cadeira ao lado cochiche inoportunamente no momento de maior tensão do filme “você faria isso?”. Acima de tudo um espelho de nós mesmos que nos faz pensar que mesmo tão longe e tão atrasado em relação a terras tupiniquins, tem muito Irã no Brasil. Ou seria de Brasil no Irã?

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