“Era um dia lindo para se estar em Boston, um dia que explica porque um poeta certa vez escreveu que esta cidade não é só uma capital, não é só um lugar. Boston, disse ele, é o estado perfeito de graça. E então, em um instante, a beleza do dia foi despedaçada.”

Foi com essas palavras, traduzidas livremente, que o então presidente Barack Obama, no dia 18 de abril de 2013, definiu o que ocorrera no dia anterior, o dia do atentado do título do filme.

Toda terceira segunda de abril é comemorado em Massachussets e alguns outros estados norteamericanos o feriado do Dia dos Patriotas. Em Boston, descobrimos logo no começo do filme, isso quer dizer correr a Maratona de Boston, beber na Maratona de Boston ou beber no Fenway Park, onde jogam os Boston Red Sox durante a Maratona de Boston. Este dia, portanto, é uma celebração do que é ser americano e, em Boston, do que é ser bostoniano. E nenhum ator personifica melhor essa terra e esse povo do que “Marky” Mark Wahlberg, nativo daquela terra e que claramente não faz esforço algum para entregar mais uma vez uma sólida performence como o ser beligerante, passional e com um senso de justiça e comunidade que epitomiza o que é o cidadão desse canto dos EUA.

Come on, come on

E é aqui que está o grande trunfo deste longa, nas dificuldades sofridas por essa comunidade e em como ela se reúne ao redor de um evento extremamente traumático e doloroso para se reerguer mais coesa e mais forte do que outrora. É no desenvolvimento dos personagens que brilha o filme e no desempenho no mínimo competente de todo o elenco, que conta com nomes como Kevin Bacon como o agente do FBI que assume a investigação, John Goodman como o comissário de polícia de Boston e o fantástico J.K. Simmons como o sargento gente boa de Watertown, cidadezinha da Grande Boston onde, finalmente, os autores do atentado são pegos.

Inspirando-se, sem dúvida, nas palavras de Barack Obama que iniciam esta resenha, o diretor e co-roteirista do longa, Peter Berg, apresenta um soberbo primeiro ato, no qual justamente se percebe que Obama tinha razão ao dizer que era uma manhã linda, feliz, de celebração nas ruas e de uma comunidade comemorando suas raízes. Aproveita o diretor para desenvolver os personagens que, de uma forma ou outra, serão instrumentais para o desenvolvimento de sua trama, estando ou não presentes no momento do atentado, tudo feito de forma bucólica e idiossincrática, quase como se nos preparando para um filme sobre um evento como outro qualquer.

E então que – quando o próprio espectador menos espera, quando a maratona parece que vai acabar sem que nada de fora do comum aconteça – as bombas explodem. Confesso que eu me assustei nesse momento e por um segundo fiquei um tanto confuso com o que estava acontecendo, tamanha é a perícia na condução do primeiro ato de forma a estabelecer que aquele era um dia corriqueiro, mais uma de muitas Maratonas de Boston.

Feel it, feel it

Representando o homem comum, Mark Wahlberg interpreta Tommy, um policial de Boston que, como quase todo mundo que eu conheço dessa cidade, tem algum problema com alcoolismo e, talvez por isso até, seja o símbolo perfeito dela. Ele está presente quando o atentado ocorre, é instrumental na investigação liderada pelo agente do FBI interpretado por Kevin Bacon e discute de igual pra igual com o comissário de polícia vivido sempre com muita segurança por John Goodman, tornando-se um bom fio condutor da narrativa.

Berg tem a preocupação de demonstrar também o lado dos dois irmãos de ascendência chechena que foram os responsáveis pelo atentado, o que é salutar, apesar do retrato ser um tanto estreito em sua essência, já que em momento algum há a preocupação em explicar a motivação por trás dos atentados.

Feel the vibration

 

Apesar de um tanto piegas do meio para o final e escamoteadamente panfletário quanto ao nacionalismo americano, O Dia do Atentado, se não é brilhante, cumpre seu papel com louvor e provavelmente vai tirar lágrimas de muitos, assim como tirou de mim. Há alguns problemas de ritmo e a sensação clara de que o filme poderia ser mais curto, em especial por causa da barriga que há mais ou menos no meio, mas nada que impeça o espectador de ver um bom, sólido filme, que consegue emocionar e entreter ao mesmo tempo.

 

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