Eu sou um sujeito de 34 anos, solteiro, cínico e, segundo meu amigo Ryan Fields afirma em praticamente todas as suas resenhas, viril. Coube a mim assistir a O Espaço Entre Nós, de Peter Chelsom, um filme feito para adolescentes, fêmeas, de 16 anos e cheias de esperanças para a vida e o amor. Fosse eu uma menina dessas, é provável que eu tivesse amado o filme e estivesse aqui escrevendo essas linhas enquanto lágrimas correm pelo meu rosto ruborizado e balbucio “mas ele veio de Marte para ficar com elaaaaaaa!”.

Não é o caso.

Fosse eu outra pessoa, eu poderia dizer que se trata de um filme lindo, que fala sobre um amor proibido e que o título é brilhante. Poderia também fazer uma reanálise da velha máxima de que o amor não conhece fronteiras e dizer que até mesmo as fronteiras interplanetárias precisam respeitar a lei universal do amor.

O Espaço Entre Nós. Brilhante!

Mas, mais uma vez, não é o caso.

Eu sou um velho chato, cri cri e, como resta claro em minha descrição, escroto. Como tal, a mim foi impossível deixar de notar as diversas inconsistências de roteiro, o protagonista cosplay de bicho de pau (tanto fisicamente quanto em expressão) e a sua namoradinha quintessencialmente adolescente.

Este é um filme que nos propõe uma história que admite que teria sido permitido a uma astronauta viajar grávida a Marte, em uma viagem que dura 8 meses e que faria com que ela permanecesse por lá por mais sei lá quantos anos, já que se tratava de uma missão de colonização. É um filme adolescente que admite o gang bang como principal atividade a ser desempenhada em Marte, pois a missão é composta de 7 pessoas e só uma delas é mulher. E, finalmente, é um filme que admite ser mais rápido ir da Florida ao Colorado de busão do que de helicóptero ou avião.

Gary Oldman and Brazzers present…

Em uma missão de colonização para Marte custeada integralmente por Nathaniel Shepherd (Gary Oldman), uma espécie de Elon Musk mais escalafobético, descobre-se que a líder da missão e única mulher da equipe, Sarah (Janet Montgomery), está grávida. Após algum debate sobre dar meia volta na nave, decide-se que eles pousarão em Marte e a criança será parida em solo marciano. Sarah morre ao dar a luz e faz história ao se tornar ao mesmo tempo a primeira mãe e o primeiro óbito de Marte.

Gardner (Asa Butterfield) cresce sendo criado por cientistas, mas, secretamente, ele mantém uma amiguinha de ICQ na Terra, o que incrivelmente ninguém nunca tinha notado (aparentemente, o Net Virtua de Marte funciona melhor e com uma criptografia mais boladona do que o daqui). Ele tem como seu melhor amigo um robô com uma inteligência artificial rudimentar – mas que nos brinda com a melhor piada do filme ao insinuar que Gardner anda batendo muita punheta – e seus ossos e coração foram desenvolvidos em um ambiente de gravidade baixa, o que leva todos a crer que ele não sobreviveria por muito tempo na gravidade da Terra.

“A gente precisa conversar, campeão.”

Eventualmente, Gardner começa a se rebelar e consegue, tal qual um menininho rebeldezinho americaninho, capotar com um carro em Marte, um planeta sem ruas ou curvas. Isso faz com que sua espécie de mãe adotiva, Kendra (Carla Gugino), sugira que ele seja levado à Terra para talvez dar uma sossegada no rapaz. 

Inexplicavelmente, nego, depois de 16 anos pensando o contrário, muda de ideia e resolve trazer o zé punheta para a Terra, não sem que Nathaniel proteste diante da possibilidade do rapaz morrer ao aqui chegar.

É óbvio que o pivete vai vir para a Terra, escapar, comer uma barra de Mars (em uma das metalinguagens mais “brilhantes” do cinema), agir como um mineiro no Rio de Janeiro ao ver um oceano pela primeira vez e se encontrar com sua namoradinha de ICQ, Tulsa (Britt Robertson) – que mais parece uma coadjuvante de Malhação do que qualquer outra coisa. Esse casalzinho da pesada então se mete em milhões de confusões e, ao final, descobrimos que para entrar na NASA, basta amar muito muito muito.

Ao que tudo indica, há uma auto escola em Marte.

Em compensação, os olhos azuis (ainda que mortos) do protagonista e o amor genuíno ele e Tulsa compartilham saltam da tela e fazem com que tenhamos inveja daquela relação entre um rapaz terminal e uma menina que passa o filme todo sem tomar banho. Isso não importa. O que importa é que, se eu tivesse 16 anos e fosse uma menina, eu não me incomodaria com absolutamente nada disso, mas tão somente com a beleza do amor impossível entre ambos.

Mas não sou.

De todo modo, se fosse, essa seria minha nota:

Contudo, já que não sou e já que eu fico extremamente incomodado com o fato de um teco teco explodir espetacularmente ao bater em um estábulo a 30km/h, a minha nota de verdade é a seguinte:

 

 

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