A chegada de um soldado ferido a uma escola feminina na Virgínia durante a Guerra da Secessão é o mote para a trama da nova produção de Sofia Coppola. Ciúme, sedução, tensão, erotismo e violência serão os ingredientes que testarão ao máximo a ligação entre as mulheres da casa e o espécime masculino. Este é o mote de O Estranho que Nós Amamos, de Sofia Coppola, diretora que, desde seu debut com o saborosíssimo “As Virgens Suicidas “, provou que é muito mais que um sobrenome famoso.

É importante frisar que, de fato, o filme não é de todo um remake da produção homônima de 1971 e estrelada por Clint Eastwood. Ambos na verdade se baseiam no mesmo romance, escrito por Thomas Cullinan, com o exemplar de 2017 também bebendo da fonte do roteiro do irmão do século passado.

Coppola, premiada em Cannes pela direção,  opera, no entanto, uma engenhosa e corajosa mudança de focalização na história. A perspectiva se dá pelo ponto de vista das mulheres da casa, lideradas por Miss Martha, uma Nicole Kidman em soberba atuação. É a dinâmica do relacionamento entre elas que interessa à narrativa, a maneira como aquele microcosmos feminino reage ao recém-chegado. Dessa forma é extremamente inteligente a maneira como o roteiro constrói polarizações entre as personagens que, longe de soarem maniqueístas, mostram-se bastante complexas. Assim, o espectador se vê transitando entre pares opostos e complementares: competição versus sororidade, dever versus desejo, mulher versus homem.

O mesmo roteiro que elabora tão bem o relacionamento entre as personagens peca no quesito ritmo. A maior (e talvez única) falha do filme é a sensação gritante de demora para engrenar que ele deixa. Essa lentidão é acentuada por uma edição que se revela fraca, como se cada cena demorasse um pouco mais do que devia para ceder lugar à próxima. O pecado, que soaria um pecadinho em qualquer outro diretor, se maximiza quando você lembra que está assistindo a uma produção da diretora em questão, que, em cada um dos seus cinco filmes anteriores, deu aulas de como se segura o ritmo. É um pouco desagradável perceber que ele causa essa sensação quando se lembra que sua duração é de um pouquinho mais que 1 hora e meia.

Se a edição é prejudicada pelo roteiro (ou vice-versa), os demais elementos técnicos são primorosos. A fotografia de Philippe Le Sourd é uma das mais bonitas já vistas, construindo uma atmosfera claustrofóbica, escura, delicada e, ao mesmo tempo, violenta. É incrível como a sensação de thriller se inicia na fotografia. A direção de arte e o cenário exalam também o mesmo esmero.

Precisamos falar sobre figurinos. Sofia Coppola é famosa pela competência em fazer com o guarda-roupa se transforme em elemento narrativo. A sua Maria Antonieta, pop, ousada, deveria ser corpus obrigatório de qualquer curso de figurino em cinema. Neste O Estranho que Nós Amamos, o que Stacey Battat faz eleva todo o nível da indumentária no audiovisual. O espectador consegue acessar cada personalidade daquelas mulheres, até mesmo o que elas tentam esconder, só olhando para o que vestem.

Quebro a regra da etiqueta e deixo por último as damas. Enquanto Colin Farrell se mostra apenas adequado ao papel do Cabo McBurney, as moças excedem todas as altas expectativas que se podiam ter sobre elas. O destaque maior vai para Nicole Kidman, uma das maiores e mais subestimadas atrizes de sua geração (sobre isso leiam o excelente artigo Até quando Nicole Kidman vai precisar provar o seu valor?, de Anne Hellen Petersen). O que ela constrói com sua Miss Martha é atuação em nível máximo, cada sentimento conflitante surgindo no corpo todo, uma modulação perfeita de voz, uma contenção tensa de gestos, é mágico, é selo Meryl Streep. Delicioso de ver é também o jogo cênico construído entre as personagens de Kirsten Dunst (Edwina) e Elle Fanning (Alicia). De um lado a repressão prestes a explodir pelo desejo, brilhantemente construída por Dunst. Do outro, o tesão pulsante, quase selvagem, que Fanning imprime à sua personagem.

O Estranho que Nós Amamos vale muito a pena. Só faltou à Sofia Coppola assistir um pouco mais a seus filmes anteriores e mexer no ritmo deste. Mas, no fim, o que fica é a coragem da obra em tocar em densidades numa época em que o cinema parece preferir flertar com as amenidades. Coragem que Miss Martha define como “fazer o necessário na hora certa”.

 

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