A anorexia é uma doença quase que exclusivamente feminina e isso não é coincidência. Resultado de uma cultura que propositalmente não te faz sentir nunca satisfeita com seu próprio corpo, seja pela magreza, pela flacidez, altura e outras merdas mais, a doença é só um espectro da doentia pressão que mulheres passam no quesito físico em suas vidas. No entanto, uma visão simplista pode nos levar a quase que ridicularizar esse transtorno; afinal, meu deus do céu, é só enfiar uma comida na boca e comer “que nem gente normal”. Será mesmo?

Eu me considero bem resolvida com meu próprio corpo mas, como absolutamente TODAS as mulheres que conheço, passei por crises diante de mudanças de peso. E, olha outra coincidência: essas crises só iniciaram na puberdade. Enquanto criança eu tava é 100% nem aí. Até que um belo dia meu avô, quando eu tinha lá meus 11 anos, falou que eu estava “muito gorda” e que eu devia “parar de comer tanto”.

Onze.

Anos.

Foi literalmente a forma de boas vindas ao mundinho em que eu precisava comprar absorventes e também contar as calorias caso quisesse ter um namoradinho ou ser olhada pelos meninos da sala. Daí pra cá as neuroses só foram mascaradas por tantas outras “necessidades”. Ter peitinho, não ter peitinho, barriga negativa, ser curvilínea, ser alta (mas não muito alta a ponto de usar salto e ficar girafa), ser baixa (mas não muito baixa a ponto de ser semi-anã), ser “gostosa natural” de forma que você até possa malhar mas só não vale “ficar que nem a Gracyanne Barbosa”. Eu já ouvi tanta merda. E certamente outras mulheres também. Tudo direcionado a um padrão que é insaciável e incontroverso dentro de sua “lógica”. E, repito, por mais maravilhosa que eu me sinta cá ou lá, tem sempre uma esquizofrênica voz que me visita de tempos em tempos e me faz reavaliar meu corpo.

Agora eu volto a perguntar: será que é mesmo ridículo esse distúrbio alimentar? Eu digo que não. No filme O Mínimo para Viver, mais uma lançamento original Netflix direto para streaming, acompanhamos a história de Ellen (Lily Collins), uma menina de 20 anos que sofre de anorexia nervosa. Ela tá um palito e isso assusta MUITO. Chegado o nível em que a garota precisa comer se não vai morrer, ela encontra o Dr. Beckham (Keanu Reeves), responsável por administrar uma espécie de clínica de reabilitação, só que alternativa. Nela, os pacientes vão aos poucos tornando-se conscientes dos malefícios do distúrbio e ajudam uns aos outros a superá-lo. Mas Ellen, ou Elie como opta por ser chamada, não quer mais viver. Seu distúrbio chegou ao ponto de que é mais fácil se render do que lutar. E durante a narrativa esperamos, a todo tempo, que ela encontre uma razão para viver. 

O longa se torna interessante por abarcar justamente a visão do doente. Ele não busca de antemão reproduzir o discurso de quão errado é ser anoréxico e blábláblá. Ele quer, de cara, te colocar ali diante daquilo, como que na pele do personagem, e tentar fazer entender o que passa na cabeça da pessoa que sofre. A formação de opinião de que aquilo é absurdo vem organicamente, sem sermões acerca do assunto. Nossa personagem principal não é nenhuma manic pixie dream girl, ou seja, nenhuma adorável menina que vomita arco íris num simples “bom dia” e é otimista quanto a tudo. Na verdade ela é quase que o oposto a isso. Ela é a anti-heroína depressiva que, por vezes, vê a vida como ela é e, por outras, como a doença faz com que ela a vislumbre. Uma investida certeira para retratar uma doença que consome não só até os ossos, mas a autoestima do indivíduo como prato principal.

Crush FORTE.

O filme não faz nenhuma revolução dentro da conscientização do assunto. É leve e discreto. A coisa toda do culto à magreza está tão assustadoramente enraizada que Lily Collins recebeu elogios quando teve que emagrecer para o papel  de uma anoréxica. ELOGIOS. Acho que diante disso é dispensável enfatizar o quão atual essa merda toda é e o quão necessário é a reflexão sobre a ainda existência de problemas como esse. Assistam.

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