O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard foi o primeiro a diagnosticar o maior sintoma que provém da liberdade: a angústia. Quando é deixada por seu marido, os filhos já não moram em casa, o aluno preferido saiu da escola, sua editora está passando por mudanças com as quais não concorda e sua mãe já não pode lhe apoiar pela velhice, Nathalie se vê imersa em uma liberdade profunda e junto a ela chega uma maré de angústias e questionamentos sobre o que está por vir.

O mais novo filme de Mia Hasen Love, cineasta que vem encantando o Velho Continente com filmes sinceros e românticos, abusa de um existencialismo light para contar a história de uma mulher feliz, professora de filosofia, casada com um marido também professor de filosofia, com dois filhos e que de uma hora para outra se vê de mãos vazias.

Nathalie não consegue dialogar com uma juventude que naufraga no mesmo ponto onde sua geração naufragou, o discurso anti capitalista, as singelas “fascistadas esquerdistas” apoiadas sob a máscara do idealismo fanático, tudo isso parece primário a uma mulher que viu o muro de Berlin cair e o sonho da utopia socialista terminar. Porém, Nathalie não encontra amparo nos seus e se vê profundamente sozinha e num fundo do poço Sartriano.

O filme é sincero, conta uma boa história, plausível de identificação de maneira sóbria e sem exageros. A fotografia, apesar de bonita, não é presunçosa, o mesmo valendo para os cenários e atuações. Apenas Isabelle Huppert, que interpreta a protagonista, e Edith Scob, mãe neurótica de Natalie, tem direito a exageros, que mesmo assim são pontuais. O visual discreto e modesto não é defeito, torna tudo mais sinceiro e singelo. Numa geração de cineastas excêntricos e exagerados como Dolan, é bom ver um pouco de sobriedade técnica para variar.

O roteiro até tenta soltar referências em filósofos como Adorno e Rosseau, mas tudo muito superficial e bobo. Para um filme sobre uma professora de filosofia vivendo um dilema existencialista era de se esperar um pouco mais de rebuscamento além de frases como: “Encontrei minha liberdade! Liberdade total! É extraordinário”. Porém, entendo que isso faça parte da pegada terrena e pés no chão da obra, fazendo com que essa simplicidade não comprometa e para alguns até seja positiva.

O que compromete a película é a total falta de aprofundamento dos coadjuvantes, que só servem de tripé para os dilemas da protagonista. Além disso, o filme se arrasta em 1h e 42min , num ritmo lento e sonífero.

Apesar de uma protagonista extremamente verosímil,uma pegada terrena e as vezes até cômica, “O que está por vir” talvez por sua extrema sinceridade para com a vida, se prova um filme sem sal. Ótima pedida para aqueles que gostam de cochilar entre uma cena e outra e acordar com uma piada ou citação filosófica pouco profunda.

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