Se não contarmos com a excelente, prolífica e maldita filmografia do grande José Mojica Marins, o Zé do Caixão, o cinema brasileiro nunca teve um grande expoente ou até mesmo grandes títulos de terror, contentando-se ou com a estética da pobreza (glamourizada ou não), dramas densos e inacessíveis ao público em geral ou comédias escrachadas e, muitas vezes, horrorosas.

Nos últimos anos, contudo, alguns realizadores nacionais vem conseguindo fazer filmes do gênero, em geral com inspiração no cinema de terror americano, e este O Rastro é o último deles, pegando emprestado, além da pegada americana, também uma estética muito evocativa de vários jogos de videogame de terror, Silent Hill sendo a principal imagem que me veio à cabeça ao assistir o longa.

Após assistir ao trailer, fui ao cinema esperando um filme de terror mais ou menos e meio sobrenatural e qual não foi a minha surpresa ao me deparar com algo que almejava mais do que meramente dar um susto barato no espectador, mas também promover um comentário social que é tão atual quanto é relevante.

O retrato da saúde fluminense.

O Estado do Rio de Janeiro está falido e a saúde está em frangalhos. Apesar disso ser uma descrição assustadoramente precisa dos fatos da vida real, este é apenas o pano de fundo do longa. O médico e funcionário da Secretaria de Saúde do Estado do Rio de Janeiro João (Rafael Cardoso) está no meio do olho do furacão que é essa crise na saúde pública do Estado, tema extremamente atual e que é usado engenhosamente não apenas como pano de fundo, mas como catalisador das relações e até mesmo como um fator permissivo das motivações dos personagens.

João é o encarregado de fazer a transferência dos 42 pacientes de um hospital caindo aos pedaços e que, justamente por isso, foi fechado pela justiça. Durante essa transferência, Julia (Natália Maciel Guedes), uma garotinha de seus 12 anos que acabara de ser internada em quadro grave, simplesmente some e é aí que aparece o grande monstro da história: a culpa.

Casado e com a mulher grávida (Leandra Leal), João tenta desesperadoramente descobrir o que teria acontecido com a garota enquanto se digladia cada vez mais com a culpa que o acomete por ter, aos seus olhos, sido o responsável por ter perdido Julia. E é aqui que entra o elemento sobrenatural, na culpa de João e na maneira que aquele hospital destroçado responde a ela e, porque não, a ele próprio, que faz parte da administração pública que levou aquele local ao abandono.

A culpa que sangra.

O filme, contudo, não para por aí e tenta fazer também uma crítica social e política cuja dimensão total não se percebe até o seu 3º ato. Infelizmente, é aqui também que o longa se perde um pouco, uma vez que, a partir de determinado momento, o espectador se sente um tanto enganado pelos trailers e pela estratégia de marketing da obra, que a vende como um filme de terror e com sustos em profusão.

Os sustos também são outro ponto negativo da película. Eles ocorrem de forma barata e gratuita, sempre ou quase sempre se valendo de artifícios como um estouro de som ou qualquer coisa assim para te fazer pular da cadeira. Um clichê com o qual o filme poderia ter passado sem, já que tantos outros estavam sendo preenchidos como ter uma garotinha do capiroto e um hospital abandonado.

Com um elenco seguro em sua maior parte, uma câmera ágil, evocativa dos thrillers psicológicos americanos, e uma direção de arte minuciosa, O Rastro é um bom filme de terror com um belo comentário social, mas que acaba por se perder em vários momentos ao não saber para onde ir. Este foi, inclusive, o último filme de Domingos Montagner antes de sua morte nas águas do Rio São Francisco durante as filmagens de uma novela, o que talvez possa ser interpretado como uma boa analogia entre seu personagem no filme, sua persona real e o estado da saúde fluminense.

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