Lançado em 2014, só agora este O Reino da Beleza estreia em terras verde-amarelas. Assinado por Denys Arcand, um dos mais celebrados diretores/roteiristas dos nossos tempos, vencedor do Oscar pelo impecável As Invasões Bárbaras (2003),  não podemos dizer que, desta vez , a espera valeu a pena. A produção é uma derrapada (perdoável, haja vista o conjunto da obra) em uma carreira até então irrepreensível.

O filme abre com uma citação de Chateaubriand que fala sobre como a beleza é a alegria e o martírio da juventude. Somos apresentados a Luc Sauvageau (Éric Bruneau), um rico, talentoso, esportivo, belo e culto arquiteto. Casado com Stéphanie (Mélanie Thierry), uma lindíssima mulher que passa por séria depressão, ele se envolve em uma aventura extraconjugal com Lindsay (Melanie Merkoski). O resultado final leva o filme a flertar mais com o martírio do que com a alegria.

A principal falha diz respeito justamente à busca do belo. Arcand investe em uma superestetização visual que se mostra infrutífera. Em 1h42min, o espectador é bombardeado por cenas que lembram mais anúncios da Dior do que a criação daquele que nos deu socos no estômago em cada um de seus filmes. Tudo é insistentemente montado para soar cool, sofisticado, chique, bonito. No entanto, toda essa meticulosidade na aparência acaba se revelando não como meio para se dizer algo, mas como o fim, a intenção do realizador. É lindo de se ver, mas tem a profundidade de um pires.

Quem se salva nisso tudo é, por motivos óbvios, a fotografia. Se algo vale como recomendação é o estonteante trabalho de Nathalie Moliavko-Visotzky. Cada frame poderia servir de papel de parede hipster em qualquer área de trabalho de um computador descolado. Os planos e as cores são de tirar o fôlego, amplos, bem-produzidos. Um trabalho de extrema competência.

Infelizmente, se as escolhas estéticas favoreceram a fotografia e a direção de arte, elas atingiram muito negativamente o campo das atuações. Apoiado no roteiro frágil, Éric Bruneau constrói o protagonista de forma que, em vários momentos, ele parece mais posar para um editorial de moda que realmente viver aquela vida. Aliás, todo o elenco é tocado pela maldição de Narciso, destruído pela própria beleza. São todos lindos. Excessivamente lindos. Muito, muito lindos. Completamente estéreis. Até as cenas de sexo, bem mais explícitas que as das produções americanas, soam vazias, coreografadas. (Nota pessoal: pesquisar como transar sem bagunçar o cabelo como eles, descobrir o que comem para serem tão fit e onde vendem os figurinos do filme).

Até mesmo a politização aguda dos filmes do diretor se efetiva como pálido pastiche. Há uma tentativa mal-sucedida de debate sobre o sistema de saúde canadense e uma outra cena que mostra Muammar Gaddafi como contraponto às personagens, mas que fica completamente fora de lugar na narrativa.

Denys Arcand nos deve um filme de Denys Arcand. O Reino da Beleza é, em resumo, um inflado produto estético com enormes vácuos de significação. Ou, citando o nosso Nelson Rodrigues, uma obra “bonitinha, mas ordinária”. Uma pena.

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