Sempre que pego um filme para fazer o review, não vou com olhos de quem estará de frente para aquilo que mais valoriza no Cinema. Seria tolo de minha parte esperar, em qualquer título que seja, que ele traga os elementos que mais me são ricos e, quando isso não ocorrer, proferir uma opinião ingrata acerca da obra. Seria por demais covarde. Significa, portanto, que assisto determinada produção tendo por base a sua proposta. Caso contrário, seria como ouvir um samba e desqualificá-lo por não ser uma bom heavy metal. Tendo isso por base, o que será possível esperar de um filme chamado O Sequestro, com Halle Berry (conhecida por algumas bombas, apesar de ter ganhado o Oscar em uma feliz ocasião de ter escolhido muito bem o que fazer)?

Após associar o nome do filme com suas primeiras imagens (cenas caseiras de vários momentos de uma criança, desde seus primeiros dias até poucos anos mais à frente), sabemos a sinopse e conflito principal: tudo girará em torno da recuperação de Frankie (o carismático Sage Correa), tão logo sua mãe, Karla (interpretada pela dicotômica Halle Berry), “perde” o filho em uma situação usual.

O filme começa curioso, pois – sabedores do que ocorrerá – a cada cena esperamos o rapto e a quebra de expectativa é sempre algo muito bom. Todos temos plena ciência – e o diretor, inclusive – do quanto esta história já foi contada e não vou dizer que aqui ela foi narrada de maneira distinta. Exatamente por isso, percebemos, ao longo das cerca de 1h25, que Luis Prieto faz de tudo para tentar levantar o filme, aparentemente fadado ao clichê.

Algumas quebras que ele faz, objetivando o supracitado, é inverter uma lógica criminosa perpetuada na mentalidade da sociedade ocidental: aqui, o atingido é uma família afro-descendente e os sequestradores são brancos-loiros. Karla, portanto, fará de tudo (a partir dos seus recursos limitados, pois ao testemunhar o sequestro de Frankie perdera o celular) para recuperar o que mais ama na vida. Quase durante o filme todo, a narrativa foca na perseguição dela aos marginais, no trânsito das vias expressas americanas. Boa parte da história, quebrando o que comumente tenderíamos a imaginar, fica no carro. Ao longo do trajeto que vai se alongando, por mais próximo que Karla chegue de reaver a criança, ela vai se deteriorando física e emocionalmente. Inclusive, em determinado momento, chega a uma semelhança com o “Fiend”, mascote da banda de Misfits.

Run, Karla, Run!

 

O que Prieto tenta, porém, não é o suficiente para esconder algumas soluções bem clichês e o fraco roteiro que tem em suas mãos. Halle Berry trabalha determinada para sustentar a história, pois é ela quem segura as pontas da narrativa. A menina sabe atuar e é evidente que ela não coloca tudo a perder. Mas, de novo, parece-me que o filme não tinha muito como ir além, apesar do (para mim) brutal esforço do diretor. O Sequestro, portanto, é uma ilustração daquilo que aprendemos nas Escolas de Cinema e que, invariavelmente, eu repito: são três processos indissociáveis nesta Arte, roteiro, direção e edição; um, isoladamente, pode melhorar ou piorar a obra, mas nunca, sozinho, fazê-la algo realmente marcante.

 

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