Primeiro de Agosto de 2014. Sempre fui uma criança sozinha, imersa em minha própria companhia. Por mais que isso fizesse a imaginação aflorar e meu apego por livros, filmes e videogames crescer, o caminho da solidão arde. Não ter com quem compartilhar suas vitórias, não ter um olhar amigo para te consolar nas derrotas arde e arde muito.

Primeiro de Agosto de 2014, tudo mudou. Fui arrastado a um mundo de pelos dourados, olhares oblíquos de um carinho genuíno. Costumo dizer que é a melhor relação que tenho, porque não trocamos palavras, gestos ou verbos. Nós nos entendemos pela primária e sincera linguagem dos sentimentos. Link tem 3 anos, é um Golden retriever compacto, que parece uma espécie de búfalo peludo. Desde primeiro de agosto de 2014 ele vem me convencendo lambida após lambida que a vida vale a pena. Não importa se faz chuva, sol ou vento, Link está sempre com a cauda ao relento, com a eterna felicidade de quem vive pelo momento. Esses 3 anos tem sido sobretudo de aprendizado. Não é fácil coçar suas orelhas, passar pomada nas esporádicas dermatites e as saídas as 21:00 da noite não são para qualquer um. Link pode ser inconveniente, intransigente e teimoso para caralho, mas, apesar de tudo isso, não consigo me imaginar acordando manhã após manhã sem seus latidos ansiando por meu café da manhã.

A forma inicial de Link.

Não houve um momento em que Okja, o superporco que dá nome ao novo filme de Joon-ho Bong, não me lembrasse de Link. Com a fanfarronice, olhar penetrante e respiração ofegante, a criatura de computação gráfica é um dos seres mais fantasticamente verossimilhantes da história do Cinema. Mais real do que o ser em si, só a relação da criatura com a pequena Mija (Seo-Hyun Ahn). Com o lirismo e inocência de sua câmera, Bong nos conduz por esse mundo de fantasia onde uma menina e um superporco vivem no plácido interior da Coreia, de florestas eternas.

Oklindo.

Mija não sabe, mas seu Okja é parte de algo muito maior. Um concurso promovido por uma multinacional, travestida em rosas brancas e tulipas púrpuras, criadora dessa nova espécie geneticamente modificada para alimentar ainda mais gente. Espalharam as criações para fazendeiros ao redor do mundo e o que tivesse o superporco mais saudável venceria o concurso. Dali para frente o massacre da espécie seria iniciado e muitas barrigas seriam abastecidas.

Um dia, o veterinário representante da empresa interpretado surtadamente por Jake Gyllenhaal bate na porta e anuncia que Okja venceu o concurso e deve ir para Nova York. Com essa premissa, o filme produzido pela Netflix foi capaz de captar uma de minhas mais fortes agonias, ver-me distante de meu búfalo compacto e peludo.

O que se segue por quase 2h é o contraste entre a sinceridade da relação entre Mija e Okja, com a indiferença e brutalidade da relação de humanos para com humanos e de humanos para com o mundo. Sem ser maniqueísta, o filme pavimenta sua sátira à indústria alimentícia com sinceridade, evidenciando a corrupção vestida de laços e pompons.

Sim, a mega corporação perversa de transgênicos está lá. Todavia ela nunca é tratada como apenas isso, Tilda Swinton personifica a empresária do futuro, repleta de preocupações pelo mundo, mas sem forças para combater a estrutura. Do outro lado temos, sim, os veganos lutando pelos animais, entretanto eles não chegam em cavalos brancos, trajando capas heroicas. Em alguns momentos são maquiavélicos e quase tão perversos quanto os que investem em transgênicos.

Pura apenas a relação entre a menina e seu superporco. Que, sem falar nada, gritam sobre tudo que falta no mundo.

Não gosto da Bíblia. Não sou cristão. Não gosto do cristianismo. Porém é impossível não achar certa sabedoria naquelas escrituras que se dizem divinas. No antigo testamento, Jeová incumbe Noé da missão de construir uma arca, onde levaria um casal de animais de cada espécie e sua família. O Deus judaico cristão mancharia o mundo de agonia com seu dilúvio, mas Noé e sua arca sobreviveriam. O motivo da intempestiva crise do papai do céu? O problema cancerígeno da relação entre nós e o mundo. Suas criaturas incapazes de encarar o papel que devem desempenhar. Somos nutridos de encéfalo desenvolvido, polegares opositores e dedos indicadores, todavia incapazes de tentar conciliar nossa amilase salivar com o bem-estar dos seres a nos cercar.

Noé bebeu demais e hoje em dia na China, Link é almoço. Esquartejamos, dilaceramos, quebramos vidas, e nos orgulharmos de fritarmos as cinzas nas churrasqueiras Air Fryer. A arca se partiu e a empatia se diluiu.

Okja é um esforço, uma bofetada no pescoço, sem panfletos, jargões, maniqueísmo ou frases feitas, com uma criatura de computação gráfica, Bong gritou no meu ouvido:

“-Seu amigo de pelo dourado podia estar no cheesebacon. Por que seu amigo de pelo dourado está vivo enquanto milhões de seres nutridos de sistema nervoso se dirigem diariamente ao matadouro, onde são torturados para te servirem o baby beef amaciado?”

Espero lembrar de 28 de junho como o dia em que disse basta. Não quero mais fazer parte dessa indústria de mãos e pernas sujas se escondendo em sorrisos Colgate total 12.

O filme vem sendo tema controverso, não pelo que apresenta, mas sim por onde é apresentado. Não ter sido exibido nos cinemas, indo diretamente à Netflix é uma facada para todo cinéfilo que se preze. Todavia, em sua essência, a película é cinematografia nua e crua. Com suas imagens, Bong ilustra o que não consigo descrever, desenha traço atrás de traço o que é a relação entre humano e animal, que tanto poderia florescer. Mais do que isso, fez-me perceber, que carne já não posso comer. Mais uma vez a arte me concede batalhas a lutar, revoluções individuais a ebulir, lágrimas a escorrer, num instinto irresistível.

Se deixarei o cheesebacon de lado, só o tempo dirá. Mas tenho certeza que o Cinema e meu búfalo peludo sempre irei amar.

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