“Vida longa às nossas correntes.”

 Buñuel abre e encerra seu filme testamento, “O Fantasma da Liberdade”, com essa simples frase monumental. Ela não é apenas o testamento envergonhado do surrealismo (talvez o maior responsável pela onda revolucionária do século passado), é também e sobretudo uma síntese do que se tornaria o zeitgeist ocidental pelos próximos 45 anos. Está presente no discurso de qualquer padre, político ou pedreiro. Todas as manhãs quando tomamos café, todas as noites ao pousarmos a cabeça no travesseiro, sussurramos inconscientemente “vida longa às correntes.” Era justamente isso que berravam as lágrimas dos “trintões” que preenchiam a fileira G na pré-estreia de Vingadores Ultimato da última quinta feira de madrugada. Mesmo sem sequer conhecer Buñuel, seus rostos estampavam esse slogan da impotência generalizada.

Cena clássica de “O fantasma da liberdade” de Luis Buñel

O cinema comercial raramente possui méritos estéticos. Não tem qualidade terapêutica, é no máximo um escapismo acessível que reduz arte a fórmula industrial. Entretanto, é inegavelmente o termômetro do imaginário coletivo, dos pensamentos das massas e do espírito do tempo. Se na década de 50 e 60, John Wayne e companhia fundaram os alicerces do blockbuster moderno com base nas relações imunológicas fundamentais dos massacres do bang-bang, George Lucas elevou o maniqueísmo “bom mocista” e civilizatório à quinta potência para fundar o que é até hoje a definição intuitiva de entretenimento.

Mais recentemente, Peter Jackson foi na goela da sistematização da ganância, daqueles mesmos bons moços, e começou a empreender o que seria a ressurreição do romantismo de cavalaria que chegaria a seu ápice na história do bruxo órfão marcado por um senhor das trevas desprovido de nariz. Tanto as franquias Senhor dos Anéis quanto Harry Potter revelam, cada um a sua medida, o mal-estar com o cinismo das elites e um retorno aos valores cavalariços medievais. Eles anunciavam o que Olavo de Carvalho, Steve Bannon e companhia passariam a semear no âmbito político/intelectual.

John Wayne no ápice do bang bang

Ambos passaram a tocha para o gênero-fenômeno cujo grande pilar vimos se firmar nos últimos 10 anos. O filme de super-herói, em sua mais famosa expressão, o universo Marvel, simboliza o começo do fim para as correntes, pelo menos como as conhecemos. Eles demarcam a resposta ocidental a pergunta fundamental do secularismo “como sobreviver num mundo sem Deus?” A resposta parece ser simples: tornando-se um. Todavia, nem Homem de Ferro nem Capitão América evocam o übermensch nietzschiano. Existe em ambos um irônico mea culpa americano, que, longe de superar Deus, parece, acima de tudo, tentar esquecê-lo.

No esgotamento do arcabouço democrático capitalista ocidental a partir da crise espiritual, os ventos do apocalipse climático e o avanço chinês (síntese hegeliana da Guerra Fria), a resposta do ocidental parece ser simplesmente a desistência. Os grandes protagonistas da imensa tapeçaria narrativa edificada pela Marvel/Disney, Homem de Ferro e Capitão América, são a máxima expressão disso. Enquanto o primeiro começa sua jornada como representante máximo da egocêntrica ética neoliberal, o segundo é o capitalismo civilizatório enquanto fé pura, casta e calvinista disposto ao martírio. No encontro dos dois que permeia todo arco narrativo dos 22 filmes da Marvel, a resposta parece ser o sacrifício dessa ética neoliberal e a passagem de bastão do espírito capitalista civilizatório à indústria do identitarismo.

Pantera Negra, um dos filmes mais bem sucedidos da Marvel/Disney

Esse é ponto que ilustra o sucesso sem precedentes do universo Marvel, ele soube atenuar a crise espiritual/existencial ocidental na metamorfose culpada do homem capitalista em deus, para ironicamente sepultá-lo imune e santificado, nos braços de quem oprimiu. A passagem do escudo do Capitão América para o personagem afro-americano Falcão é tão taxativa quanto a substituição do Homem de Ferro pela Capitã Marvel como centro de protagonismo narrativo. O homem branco não interessa mais a si mesmo, para sobreviver ao inevitável (exemplificado por Thanos), precisa entregar os pontos a movimentos que em si são inúteis, pois naufragam exatamente onde o marxismo caiu anos atrás: a equivocada leitura estrutural. Não que o estruturalismo em si esteja errado, porém nem a luta de classes muito menos o patriarcado marca o pecado original. Esse é e sempre será a autoridade.

O ocidente, assim como a Marvel se nega a enxergar isso, se nega a reformular a crise espiritual desencadeada pelo progresso científico e tecnológico num novo ethos de empoderamento da humanidade. Ao contrário, ele ou retorna a caverna medieval exemplificada hoje pelo neo-populismo conservador, ou chafurda no identitarismo cirandeiro. Paradoxalmente nenhum dos dois é capaz de vencer os dilemas e contradições representados pelo dragão chinês e o apocalipse ambiental. Eles preferem esquecê-los, transformando nossas ruínas ou em castelos ou em Wakanda. O pós-modernismo no fundo é isso: uma realidade manufaturada por cegos. Onde não se louva mais as correntes, porque elas foram permutadas no imaginário em adornos sagrados, joias essenciais. Buñuel está ultrapassado porque nem mesmo as correntes enxergamos mais.

Cena de A Harmonia Werckmeister de Béla Tarr

Nesse sentido, o presente perde qualquer esperança de redenção tarkovskiana. Não existe mais reconciliação com o divino, não existe mais crença para alimentar o transe glauberiano e a fé opressiva retratada por Bergman é a migalha com qual as massas se alimentam. O mundo de hoje ganha contornos de Béla Tarr: nós perdemos, disso não há como escapar. Resta a cegueira. Até quando a cegueira dura, é difícil dizer. Até quando dura nosso estoque de analgésicos culturais e auto-aclamação?

Entretanto é possível afirmar que no fim dessa cegueira, provavelmente, o mundo ocidental estará ou subordinado ao novo pathos oriental ou simplesmente se encontrará morto e a estátua da liberdade, o cristo redentor e as pirâmides de Gizé jazendo no fundo do oceano. Os trintões da fileira G soluçam pelo ultimato enfrentado pelos vingadores, todavia deveriam chorar por outro ultimato, um que nós mesmos enfrentamos, um ultimato espiritual. No qual não há nenhum deus ex machina para nos salvar.

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