Em meados da década de 90, o Brasil foi tomado de assalto por uma grande novidade. A TV à cabo. Meu pai, sendo um sujeito que rivaliza comigo em misantropia e vontade de ficar em casa para sempre, aderiu à onda logo de cara e assinou a TVA. Além dos filmes soft porn que passavam na HBO de madrugada e a programação de esportes da ESPN, o canal que eu mais via era o Sony Entertainment Television e suas chamadas ridículas de um americano falando português com sotaque.

Nele, apesar do grande fenômeno ser Friends, eu gostava mesmo era de passar a tarde vendo reprises de Seinfeld. E foi aqui que eu fui apresentado ao stand-up, já que em todo episódio o próprio Jerry Seinfeld apresentava uma piadinha mais ou menos em um clube de comédia. A partir dali tomei gosto pela coisa, baixei vídeos e mais vídeos de monstros como George Carlin, Lenny Bruce, Richard Pryor e Eddie Murphy (esses dois últimos tem dois especiais antológicos, ainda que um tanto datados, disponíveis na própria Netflix).

Bruce, Carlin, Pryor, Murphy. Lendas.

Meu preferido, contudo, sempre foi Bill Hicks. Na tradição de George Carlin, ele te fazia rir e te perturbava ao mesmo tempo, fazendo com que você questionasse não só a autoridade e as verdades absolutas do mundo, mas a sua própria existência.

“Agora a nossa situação como um todo é a seguinte. Estamos em uma realidade baseada em um fino verniz de mentiras e ilusões. Um mundo onde a ganância é nosso Deus e a sabedoria é pecado, onde a divisão é fundamental e a unidade é uma fantasia, onde a esperteza ególatra da mente é exaltada, ao invés da inteligência do coração.” Bill Hicks

A Netflix, indo na tradição da HBO, tem lançado mais ou menos 1 especial de stand-up a cada duas semanas. Tem muita coisa boa, mas também tem uns comediantes que são simplesmente inassistíveis, seja porque é um gordo escroto (como eu), que só deve ter comido alguém depois que ficou famoso (como eu também, só que eu não fiquei famoso), que passa seu especial inteiro falando do quanto ele comia as menininhas no sul dos EUA (Ralphie May), seja porque é uma mulher cuja ideia de comédia é falar 10 vezes por minuto a palavra “pussy” (Amy Schumer), seja porque um deles é o Felipe Neto falando da sua vida. Têm seu valor (menos o Felipe Neto), mas não é para mim.

A seguir eu compilei os 10 melhores especiais de stand-up lançados pela Netflix ano passado de acordo comigo e mais ninguém. Fica também a dica, para aqueles que amam a comédia e as pessoas que a fazem, da série disponível na Netflix “Comedians in Cars Getting Coffee”, produzida, estrelada e dirigida pelo próprio Jerry Seinfeld, na qual ele basicamente dá uma volta de carro com um outro comediante, toma café e fala merda, em geral produzindo maravilhosos insights sobre a comédia e sobre o quanto americano bebe uma porra dum chafé nojento e ralo.

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