Todos os dias, eu acordo. Beijo minha mulher na cama. Arrumo-me e vou para o trabalho. Sempre vejo as mesmas pessoas e escuto os mesmos tipos de coisas. Volto a casa, depois de um dia inteiro de expediente e tarefas que se repetem, às vezes com nova roupagem, mas no fundo sendo as mesmas de antes. Vejo um pouco de televisão, um episódio, um filme, um jogo de futebol. Penso nas minhas histórias e em como, na minha cabeça, elas poderiam ser bons filmes (pelo menos, para o meu gosto). Mas será que um dia eu vou conseguir filmá-las? Elas dizem muito sobre mim. Vou para cama e durmo. No dia seguinte, este parágrafo se repete. Eu poderia ser Paterson. Será que eu preferiria ser um peixe?

Paterson (em belíssima encarnação por Adam Driver) acorda todos os dias. Beija sua mulher, Laura (interpretada com segurança por Golshifteh Farahani), na cama. Arruma-se para o trabalho. Sempre vê as mesmas pessoas e escuta os mesmos tipos de coisas. A igualdade é tão latente, que, a cada dia, ele vê gêmeos nas parecidas ruas por onde anda. Volta a casa, depois de um dia inteiro de expediente e tarefas que se repetem, sempre com seu mesmo itinerário (nada mais repetitivo do que dirigir um ônibus da mesma forma, pelo mesmo lugar, parando nos mesmos pontos). Sai com o cachorro Marvin (brilhantemente interpretado por Nellie, vencedora do prêmio Palm Dog de Cannes, em 2016) e bebe uma cerveja no bar. Pensa em seus poemas e os escreve. Talvez não pense em lançá-los ao mundo, mas é ali que ele pode ser apenas ele, sem repetições. Ele se reinventa a cada poema, que não deixa de dizer muito sobre si próprio. Vai para a cama e dorme. No dia seguinte, este parágrafo ressurge. Este é Paterson. Será que ele preferiria ser um peixe?

Paterson e Laura, em uma das suas atividades do dia.

Paterson amanhece todos os dias, com a luz do Sol, que se intensifica ao longo da manhã e tarde, para depois sumir novamente, no anoitecer, iluminando ou deixando na penumbra suas ruas remendadas e iguais, seus becos sujos e seus estabelecimentos convidativos, à sua moda peculiar. Esta é a cidade em Nova Jersey, onde mora nosso protagonista homônimo. Será que Paterson preferiria ser um aquário?

Paterson tem 1h58, conta a história de uma semana na vida do personagem homônimo, que mora na cidade homônima. É um filme de Jim Jarmusch, que assina tanto a direção quanto o roteiro. E, como é comum a identidade cinematográfica do cineasta, esta obra nos traz uma relato suave, sem grandes conflitos, sem plot twists ou acontecimentos-chave, sem apelos ou pretensões, dizendo tudo com tão pouco. Basicamente, acompanhamos os principais momentos da vida do protagonista e – sem dar spoiler algum, mas contando tudo quase que efetivamente – estes já foram descritos nos parágrafos iniciais. Ficamos um bom tempo da história esperando aquele fato que irrompe, após a apresentação do personagem e do universo narrativo, e que nos dirá o que ele deverá buscar no restante da obra. Mas não. Não há nada assim. O que há são mudanças leves, sutis, como de fato ocorrem em nossas vidas. É como observar um peixe, através de um aquário, em suas voltas insistentes de um lado para o outro, sem nunca sair dali, chegando a todos os lugares, mas sem chegar a lugar algum. É como observar qualquer pessoa ou a nós mesmos. Será que preferiríamos ser um peixe?

Marvin observa o casal, exatamente como nós os observamos. Será que somos Marvin?

Tudo na obra é repetido e repetitivo. O nome do filme, que é o nome do personagem, que é o nome da cidade. Os gêmeos que sempre aparecem, em um momento ou outro. Os dias, que aparentam todos iguais, bem como as ruas e os becos. Os gestos, as conversas, as pessoas. As tarefas, os hábitos, os conflitos. O único elemento que destoa é sua mulher Laura, que a cada instante parece encontrar um novo sentido para sua vida: produzir cupcakes (em uma intenção de se lançar à gastronomia), tornar-se musicista (ao insistir pela compra de um violão, instrumento este que jamais tocou na vida), pintora (uma vez que decora cada mínimo detalhe da casa com suas cores marcantes, o preto e o branco). Acostumamo-nos com isso, como somos acostumados com isso em nossas vidas. E, então, quando um detalhe – aparentemente simples – acontece, aquele vem como um trovão a descarregar toda sua fúria em nossas cabeças. Ficamos tontos e desesperados com algo que quebra a certeza do que virá, pois, até este momento, somos capazes de definir as próximas sequências. Estaria, com isso, Paterson fadado ao castigo eterno do peixe, sem nem poder ter aquele momento, supracitado, em que é ele mesmo, sem repetições? Será que, nesta hora, ele preferiu ser um peixe?

Paterson andando em Paterson – cena do filme Paterson.

Em meio a filmes que contam histórias através de 7 milhões de cortes por segundo e uma explosão a cada arroto ou peido, Jim Jarmusch opta pelo quieto, silencioso, trivial, mas que nos detona tão mais pesada e duramente do que qualquer outra bola de fogo barulhenta desses títulos que o público já está acostumado. Paterson fala sobre cada um através da alegoria desse motorista, não sendo desagradável, nem pessimista. Pelo contrário, a sua conclusão, dentro desse universo corriqueiro, é esperançosa. Ele poderá continuar sendo Paterson; não a cidade ou o filme, mas ele mesmo. Pois o que foi tirado dele pode ser reinventado pela sua força de vontade. Vontade de não ser um peixe. Paterson – o filme – fala sobre nós, sobre mim e sobre você. Será que você preferiria ser um peixe?

 

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