Assistir ao segundo longa de Júlia Murat é uma experiência desafiadora – no melhor dos sentidos – para o espectador. Pendular é um filme que não faz concessões, não se vende fácil, não se deixa desvendar de cara. Pelo contrário, ele exige que a plateia se lance no jogo, crie sentidos. É cinema-Esfinge da mais alta qualidade.

Ele (Rodrigo Bolzan) é escultor. Ela (Raquel Karro), bailarina. Um casal de artistas que se muda para um galpão industrial que passa a ser lar e espaço de trabalho. Uma fita laranja no chão divide o lado dela do dele. Ao longo da narrativa, a fita passa a ser metáfora maior, dividindo a intimidade, a crise, o relacionamento e os limites que amor, sexo, arte e intimidade transformam em fronteiras em permanente reavaliação.

O primeiro acerto do longa está no roteiro. A história se desenrola em um estado de contemplação (realizado competentemente, também, na edição e na direção), que nos leva a imergir na intimidade dEle e dEla, um casal que não conhece o passado um do outro, mas que, na exigência do relacionamento e do espaço dividido, se vê obrigado a confrontá-lo. E o roteiro dimensiona isso em profundas camadas, com maturidade e beleza cortantes.

Ainda no território da narrativa (e território não foi uma palavra escolhida a esmo), é muito forte a relação que a dança e a escultura criam. Juntas, elas dialogam, por vezes sussurrando, outras, aos gritos. Dança e escultura formam uma geometria dos corpos, dos espaços e dos afetos que desemboca em uma geografia de corpos, espaços e afetos, já que ambas as artes se tocam no que diz respeito à exploração do ambiente, com o movimento no caso da dança e com a materialidade, no que tange à escultura.

Esse diálogo ganha força na excelente direção de arte, nos cenários e na fotografia. As esculturas em cena, criadas por Elisa Bracher e Marina Kosoviski, são eixos da história e realizam o movimento pendular do estático da arte dEle com o dinâmico da arte dEla. Aliás, dica MetaFictions, elas já estão em exposição, juntamente com vídeos produzidos pela diretora e contando com três performances em datas marcadas, no MAM-Rio. Saia do cinema e vá ao museu, combo bem mais saudável que cinema e comer porcaria depois (selo MetaFictions de vida saudável) (Nota do Editor: Jamais haverá um selo desses. Jamais!). A fotografia, assinada por Soledad Rodríguez, interage com o espaço, através de um uso interessante do claro/escuro e ao criar uma sensação bonita e angustiante de “claustrofobia na amplidão”.

O trabalho da dupla de protagonistas é o produto final de um filme orgânico. Enquanto Raquel Karro constrói sua personagem com o corpo – as cenas de dança são tão importantes quanto o que se fala -, Rodrigo Bolzan monta seu escultor na economia de movimentos, mas, sobretudo, na explosão do olhar. Juntos, os dois atores se lançam em uma coreografia cênica, num jogo que retoma o duo geometria/geografia. A harmonia e o trabalho de atuação orgânicos ficam mais evidentes nas viscerais cenas de sexo do longa, que funcionam como falas extras, iluminando uma relação que, ao longo da história, se mostra cheia de opacidades. Karro e Bolzan dão conta com bastante solidez dessa dupla de artistas.

No fim, Pendular levanta questões e angústias. É sobre limites e deslimites. Sobre ir e vir, tal qual um pêndulo mesmo. E mostra que, sim, a dança desesperada numa das cenas dEla escolheu a trilha certa: “Love Will Tear Us Apart”. Mas, “o que pode uma criatura, senão, entre criaturas”?

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