Ontem eu estava trabalhando em casa quando recebo uma mensagem de Larissa Moreno com os seguintes dizeres: “Segura essa rola aí!”

A rola – aqui utilizada como uma metáfora aviária ao órgão sexual masculino – a que Larissa Moreno tão fofa e graciosamente se referia é a resenha de  Personal Shopper, uma vez que esta era uma incumbência dela, mas, devido a problemas de foro íntimo, expressão aqui utilizada em substituição à palavra preguiça, ela não poderia fazer.

Assim, encaminho-me ao cinema sem saber porra nenhuma a respeito do filme. Sabia apenas ser estrelado pela Kristen Stewart, mas sem vampiros ou lobisomens, e que ela interpreta a  personal shopper  do título, trabalhando em Paris para uma celebridade qualquer do mundo fashion. Imaginei, portanto, uma espécie de vuco entre os acontecimentos bafônicos de O Diabo Veste Prada e o glitter da série Crepúsculo.

Para minha surpresa, logo na primeira cena do filme, Maureen, a personagem interpretada por Kristen Stewart, aparece com um cabelo ensebado e vestindo roupas que jamais passariam perto da casa do lenhador empregado pela madeireira que fornece a celulose para a produção do papel usado para imprimir o roteiro de O Diabo Veste Prada. Ela é deixada em uma casa aparentemente abandonada e aí eu tomo uma porrada no meio da minha cara, porque esse filme é, na verdade, uma história de fantasma e eu não fazia a menor ideia.

Não, isso não é gel.

Antes mesmo do espectador descobrir que Maureen é uma personal shopper, ele descobre que ela é uma médium e que seu irmão gêmeo, Lewis, morrera pouco tempo antes por causa de uma doença cardíaca congênita da qual Maureen também sofre. Enquanto assistente de Kyra (Nora von Waldstätten), a tal celebridade fashion meio escrota da qual já falei, Maureen passa o filme todo reclamando do seu trabalho, muito embora este consista em fazer compras de artigos de luxo com o dinheiro dos outros, fazendo seu próprio horário e tendo tempo de sobra para fazer um aparente bico como médium às noites.

Apesar de parecer, na sinopse, um filme raso e sem qualquer sub texto, trata-se na realidade de uma história sobre uma pessoa em uma crise enorme de identidade e de espiritualidade, alguém com uma dificuldade gigante de se desvencilhar do fantasma, literal e figurado, do irmão gêmeo morto meses antes. Maureen passa todo o filme tentando fazer as pazes com a morte do seu irmão ocasionada pelo defeito genético que ela também carrega, fazendo com que, assim, sua própria mortalidade seja posta em cheque o tempo todo.

A direção segura de Olivier Assayas, que ganhou o Palma de Ouro de Cannes como melhor diretor por este filme esse ano (o que não me parece ter sido lá assim tão merecido), consegue equilibrar o roteiro um tanto truncado e confuso. Não se sabe, por exemplo, porque diabos uma americana estava em Paris. Na realidade, não há qualquer razão para que aquela personagem fosse americana que não uma provável questão comercial de se ter uma estrela como Stewart como o fio condutor da história. Ademais, enquanto uma pessoa babaca que vai agora aqui afirmar a vocês que morou em Paris, eu posso atestar que NINGUÉM está disposto a falar inglês com você na rua e poucas são as pessoas que sequer sabem falar inglês.  Do jeito que as coisas são retratadas no filme, é quase como se Maureen estivesse andando pelas aprazíveis ruas de Boise, a capital do Idaho.

E isto sem contar na heresia cometida por Maureen, que está me deixando puto da minha cara até agora, de comprar uma cerveja, abrí-la e largá-la no balcão sem nenhum motivo aparente. Isso não se faz!

Stewart e seu principal parceiro de cena

Findo o meu piti, não posso deixar de dizer que, problemas de roteiro à parte, felizmente, Kristen Stewart se tornou uma belíssima atriz desde que a vi pela primeira vez em Na Natureza Selvagem (um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e que eventualmente será alvo de um quadro aqui no Metafictions). Ela atua boa parte do tempo sozinha ou somente com seu smartphone, recebendo a responsabilidade de carregar o filme e correspondendo muito bem, ainda que suportada por um elenco de apoio que, por vezes, sequer parece ser composto por atores profissionais. Em uma determinada sequência de mais ou menos 20 minutos, a parceria entre a competente direção de Assayas e a excelente interpretação de Stewart consegue conferir uma tensão inimaginável  para o que deveria ser uma tediosa troca de mensagens de texto no celular.

Ahhhhhh, como todo bom filme francês, alguém precisa pagar peitinho em algum momento. E é Kristen Stewart a escalada da vez, em duas cenas que nada de tem de sexuais, sexualizadas ou gratuitas (felizmente).

Um bom filme, que não envereda pela senda fácil dos sustos forçados e das situações maniqueístas, preferindo desenvolver a personagem de Maureen, em uma jornada de auto descobrimento e luto pelo irmão.

 

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