Desde que vi o trailer já havia me colocado à disposição para resenhar o filme. A partir daquilo que os poucos minutos de marketing me mostraram, estava estruturando uma introdução que remontava ao Cinema-Ideológico, pois parecia muito que a obra faria acusações de determinadas figuras e fatos em detrimento de outros tantos. É fato que podemos sentir um pouco disso ao longo das quase 2 horas de história. No entanto, mudei a minha concepção. Não me pareceu tão acintoso na maior parte do tempo. Há, sim, uma problematização acerca de alguns pontos da política brasileira como um todo. Polícia Federal: A Lei é Para Todos surge em um dos momentos mais delicados do país, desde sua redemocratização.

A obra conta os bastidores (como a própria frase chamariz do poster apresenta) da operação Lava Jato, iniciativa anti-corrupção liderada pela Polícia Federal. Acompanhamos de perto as ações de três investigadores em especial – Ivan (Antonio Calloni, impecável em tudo o que faz; seja uma novela meia-boca, seja uma obra densa), Bia (nas mãos da maravilhosa Flávia Alessandra) e Julio (energicamente interpretado por Bruce Gomlevsky). A narrativa não foca na construção dos personagens (muito embora, Julio seja o único sobre quem conhecemos no foro íntimo); o que importa é o esquema contra os ladrões “do colarinho branco”. Em diversos momentos narrados por Ivan, somos apresentado de maneira extremamente didática à complexa teia desse sistema vil que liga desde traficantes à empresários manda-chuva que fazem e acontecem nessas terras inóspitas (no que diz respeito ao caráter), passando – obviamente – pelas mãos dos parlamentares eleitos por um povo carente de senso crítico e desprovido de historicidade.

Os vários momentos da investigação.

Em alguns momentos seguindo a estrutura de um suspense policial, em outros parecendo mais uma reconstituição presente naquelas séries de documentários do History Channel, o filme dá nome aos bois; estão todos lá: o japonês e o bonitão a la Ibrahimovic da PF, “Lulinha Paz e Amor”, o doleiro piadista, Marcelinho Odebrecht, Sergio Moro (o Paladino do Aécio Narizinho), Paulinho Petroleiro e toda a corja. A sensação que dá é de ter sido um longa feito para apresentar – o mais didaticamente possível – ao povo brasileiro o que aconteceu, contextualizando cada coisa. Para isso, inclusive, recorrendo até a imagens reais (durante e depois da narrativa principal). Para se ter uma ideia, após os minutos iniciais somos apresentados (por meio de animação) a um mastigado resumão da História do Brasil, evidenciando o quão mergulhado em corrupção este protótipo de nação está desde que fora descoberto pelos portugueses. Continuando com a característica de identificar cada qual, eles enfiam no meio desse histórico o Getulião (a meu ver, única pessoa séria que já vestiu a faixa presidencial). O curioso é que o longa – apesar de lembrar do primeiro processo de impeachment – deixa de fora nomes muito evocativos como Collor, Sarney, Aécio Narigada e um batalhão cuja lista seria tão grande que chegaria ao inferno. Estaria isso confirmando minha concepção prévia de uma obra ideológica?

Nas idas e vindas da investigação, vamos percebendo – para a surpresa do público ao meu redor na sala de cinema, mas não para a minha; aliás, não sei como as pessoas ainda se surpreendem com essas coisas – que o sistema é mais forte do que tudo e que há (como na França pré-Revolução) uma sociedade estamental de privilégios. Os próprios réus agem com resoluta arrogância e sem qualquer medo, sabedores de que, em breve, tudo se reverterá. Enquanto isso, o povo – principal atingido pelas falcatruas que somam cifras para além do imaginável – se digladia defendendo um ou outro lado, como se alguém ali pudesse contrariar o que dissera há mais de 500 anos Maquiavel em O Príncipe: os homens são ingratos, volúveis, fingidos e dissimulados, avessos ao perigo, ávidos de ganhos. Pequenos tolos. O próprio Ivan coloca – em um dos poucos momentos de problematização total – “a gente tira eles e coloca quem no lugar?”. Não há alguém.

Os Paladinos da “esperança”. Yeah, right…

Marcelo Antunez, conhecido pelos seus longas anteriores (todos de comédia pastelão, estilo Zorra Total de 90 minutos), deixa transparecer suas origens, trazendo tanto na narrativa quanto na direção (dos atores, principalmente) algo de novelesco no filme. A obra se sustenta muito mais no momento político do país e em como isso tem afetado o espectador do que como uma peça em si. Acredito, porém, que um estrangeiro alheio aos atuais acontecimentos do Brasil consiga entender plenamente o que é narrado (mesmo porque, como dito algumas vezes, é deveras didático). No entanto, analisando o filme pelo filme, o título não deslancha, ficando aquela impressão de ter sido uma tentativa de propaganda ideológica. Apesar disso, esta sensação é desconstruída pela cena e inscrição que concluem a exibição: Polícia Federal 2, sugerindo a investigação das malandragens do ex-Chanceler do Star Wars, o Conde Drácula, atualmente presidente do Brasil, Michel Temer.

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