E chegou aquela época do ano que mexe com o coraçãozinho e as bolsas de apostas de todo cinéfilo. A Academia acabou de revelar os seus indicados e os Oscars sorriem douradinhos para nós. Injusto, cruel, vendido, mais preocupado com popularidade do que com arte, ultrapassado, retrógrado, reacionário, superestimado. Seja qual for a sua acusação contra o Homenzinho Dourado, em sua 92ª edição ele continua sendo o mais badalado e falado prêmio do Cinema. Ame-o ou odeie-o. Ou faça as duas coisas ao mesmo tempo.

Então, vamos dar uma olhadinha no que está rolando pós-indicações.


O melhor dos melhores

Neste ano, 9 produções foram indicadas ao prêmio máximo da noite: melhor filme. São eles:

Ford Versus Ferrari
O Irlandês
Jojo Rabbit
Coringa
Adoráveis Mulheres
História de um Casamento
1917
Era uma Vez em… Hollywood
Parasita

Dá pra mim, dá?

Nenhum deles, repetindo a corrida do ano passado, é claramente o favorito ainda. Pra piorar, essa temporada é a mais curta em décadas. Do anúncio dos indicados à cerimônia no dia 9 de fevereiro não se passará um mês. O que falar então dessas possibilidades?

  1. a) Regra de três: durante muito tempo uma regra mágica permitia prever o vencedor da noite e a maioria dos vencedores da história a seguiram. Para meter a mão na estatueta era preciso ter, além de melhor filme, 3 outras indicações para direção, atuações e roteiro. Dos nove filmes deste ano, apenas 3 conseguiram atingir esta meta: O Irlandês, Coringa e Era uma Vez em… Hollywood.
  2. b) Cédula preferencial: no entanto, nos últimos anos a Academia mudou o sistema de votação. Agora elencam-se os filmes nas cédulas por ordem de preferência. Ganha quem conseguir mais números 1, ou seja, aquele que tem menos elementos capazes de irritar as pessoas (oi, Green Book).

Essa cédula mágica pode beneficiar dois filmes da lista: 1917, um épico de Guerra sem indicações de atores e o filme do ano para o Metafictions (em nosso Top 10 – Melhores Filmes de 2019), Parasita, que, além de ser a 1ª indicação da Coréia do Sul à festa (e foram logo 6 categorias), pode se beneficiar do fato de ser o 11º filme não majoritariamente falado em inglês a entrar no clubinho dos Best Picture, mesmo sem atuações indicadas.

Mas, essa cédula pode ferrar a vida de filmes muito polarizadores (Coringa e Jojo Rabitt) ou de estruturas respeitáveis, mas tradicionais (História de um Casamento, Ford versus Ferrari e Adoráveis Mulheres)


Para ganhar pontos no bolão

Embora tudo possa acontecer, algumas categorias já são consideradas fechadas e já tem gente escrevendo discurso. Mas uma zebra é uma zebra e a gente gosta. Porém, em caso de dúvida, pode marcar no bolão da firma:

. Melhor roteiro original: Era uma Vez em… Hollywood (Tarantino+ Tapinha nas costas da Indústria)

. Melhor atriz: Renée Zellweger (todo mundo ama o retorno de uma sumida e, quando ela arrasa fazendo a lenda do cinema Judy Garland, dá uma estátua pra ela)

Oi, sumida

. Melhor ator: Joaquin Phoenix (combo completo: psicopata, mudança corporal, aclamação da crítica)

. Atriz coadjuvante: Laura Dern (tá ganhando tudo e os colegas atores, que são o maior corpo votante da Academia, são loucos por ela – aliás quem não é?)

. Melhor filme internacional (antiga categoria Filme estrangeiro): Parasita ( tá indicado na categoria principal, não vai perder aqui, né?)

. Melhor documentário: dói o coraçãozinho brasileiro, porque nesta categoria tivemos a surpresa deliciosa de ver Democracia em Vertigem, de Petra Costa, indicado (ebaaaaaa! Brasiiiiiiiiiilllll). Mas American Factory chega com o pedigree de ser o primeiro documentário feito pela produtora de nada mais, nada menos, que o casal Barack e Michelle Obama. Mas que a gente tá torcendo por uma zebra verde-amarela, ah, estamos.

O que Obama e Bolsonaro têm em comum? Nenhum dos dois quer que Democracia em vertigem ganhe.

. Melhor canção original: A Academia esnobou feio o excelente Rocketman, a cinebiografia do astro Elton John. Mas será bem difícil que a única indicação do longa, a canção (I’m Gonna) Love Me Again, saia sem uma estatueta pro Sir e seu parceiro de composição Bernie Taupin.


Close errado

Oscars (almost) so white: de novo a Academia fecha os olhos para trabalhos estupendos da comunidade negra. Para se ter uma ideia, dos 20 atores indicados, apenas uma é negra, Cynthia Erivo, em Harriet, um filme que conta a história de quê? Surpresa! Escravidão.

Pelo menos três outros atores negros foram exaltados pela crítica por performances para as quais a Academia fechou os olhos: Lupita Nyong’o, em Nós, o veterano Eddie Murphy, por Meu Nome é Dolemite (cujos figurinos maravilhosos da também negra e vencedora do Oscar por Pantera Negra Ruth E. Carter também foram esnobados) e o dono de uma estatueta em Ray, Jamie Foxx, elogiadíssimo em Luta por Justiça.

Não havia negros para indicar, eles disseram…

. Clube do Bolinha: mais uma vez só indicaram homens ao prêmio de Direção. Num ano com trabalhos excelentes dirigidos por mulheres, a ausência mais sentida é, sem dúvida, a de Greta Gerwig e seu imponente Adoravéis Mulheres. Também doeu não ver Lulu Wang e seu excelente A Despedida fora do grupo.

Reunião do setor de diretores na Academia


Esnobados

Quem nunca tomou uma esnobadinha na vida, não é mesmo? Além da galera citada aí em cima olha quem mais sofreu com a indiferença do Tio Oscar nesse ano:

Jeniffer Lopez: a superstar era aposta certa na categoria atriz coadjuvante com sua melhor atuação em anos em As Golpistas. Não deu e JLo vai ter que se contentar com o show do intervalo do Superbowl “apenas”.

I’m still Jenny from the block

Rocketman: a história de Elton John foi deixada de lado com apenas uma indicação. As apostas para os prêmios de figurino e melhor ator para Taron Egerton (vencedor do Globo de Ouro e indicado ao SAG e ao BAFTA) não decolaram.

Beyoncé: Queen B. é a rainha da porra toda, mas Spirit, sua canção para O Rei Leão foi destronadíssima.

Frozen II: ele pode ser a maior bilheteria da história da animação no cinema, mas, na categoria Melhor Animação dos Oscars, Frozen II congelou feio. Conseguiu só a indicação de melhor canção, que provavelmente não vai vencer.

A Despedida: aclamada em Sundance e com indicações ao Globo de Ouro, BAFTA e Critic’s Choice Awards, a comédia dramática de Lulu Wang e sua protagonista, Awkafina, deram adeus aos Oscars.

Adam Sandler: essa cerimônia do Oscar poderia ser lembrada eternamente como “O Oscar do Adam Sandler”, elogiadíssimo em Joias Brutas. Mas não será assim. O medo maior é que ele ameaçou que, caso não fosse indicado, faria um filme ruim de propósito. Olhando a filmografia do moço, é hora de começar a tremer.

Poxa, depois eu faço Cada uma tem a gêmea que merece e vocês reclamam, né?


Salada mista

Uma coleção de informações aleatórias, curiosidades e números sobre os Academy Awards 2020. Tudo para você provar pra sua avó que é um cinéfilão e pedir o zap do crush no Tinder porque o chat dali “é muito ruim pra falar sobre o Oscar”.

– Apesar da vergonhosa omissão de mulheres em Direção, a Academia bateu o recorde de indicações femininas em toda a sua história: 62 moças estão concorrendo.

– Com 24 indicações, a Netflix é a maior distribuidora do ano.

– Noah Baumbach (História de um Casamento) e Greta Gerwig (Adoráveis Mulheres) formam o primeiro casal a competir entre si pela estatueta de melhor filme. Além disso, ambos foram indicados por seus roteiros (ele, original, ela, adaptado) e ambos foram esnobados na disputa pelo prêmio de direção.

No meu Oscar ou no seu?

– Com 1917, Sam Mendes volta a ser indicado a Direção e Melhor Filme exatos 20 anos depois de suas vitórias em ambas as categorias com Beleza Americana.

– Aos 25 anos, Saoirse Ronan é a segunda atriz mais jovem a conseguir quatro indicações na carreira. Ela só perde para Jennifer Lawrence, que era quatro meses mais jovem quando conseguiu sua 4ª indicação.

Cynthia Erivo se junta a Lady Gaga e se torna a segunda pessoa a ser indicada por atriz e canção original no mesmo ano. Se ela ganhar uma estatueta, ela também se tornará a pessoa mais jovem a entrar no clube dos EGOT, os 15 artistas que já possuem Emmy, Grammy, Oscar e Tony.

. Scarlett Johansson se torna a 12ª pessoa a ser indicada por duas atuações no mesmo ano. Ela está indicada a melhor atriz por História de um Casamento e melhor atriz coadjuvante por Jojo Rabitt. Nenhum dos indicados em anos anteriores conseguiu levar as duas estatuetas pra casa.

“Duas Scarletts oscarizam, oscarizam muito mais”

– Caso Joaquin Phoenix leve o prêmio, será a segunda vez que o personagem Coringa dará um Oscar para seu intérprete. Heath Ledger foi o primeiro.

John Williams se torna a pessoa viva mais indicada aos Oscars na história. Com a trilha de Star Wars: a Ascensão Skywalker, ele atinge a marca de 52 indicações. Com sua 9ª indicação neste ano, Martin Scorsese se torna o diretor vivo mais indicado.

Que a Força afine com você

Agora, leitor MetaFictions, é esperar o dia 9 de fevereiro pra descobrir que surpresas, raivas e emoções o carequinha dourado nos trará.

Como ganhar um Oscar vestida de Oscar

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