Redemoinho começa com uma linda tomada de uma ponte. Velha, estreita e de aço, ela é açoitada por uma chuva torrencial. Essa imagem ilustra perfeitamente a relação havida entre Luzimar (Irandhir Santos) e Gildo (Júlio Andrade) e dá a tônica do que é o filme.

Luzimar, casado com Toninha (Dira Paes) é o encarregado do turno da manhã de uma tecelagem na cidade mineira de Cataguases e vive uma vida relativamente humilde com sua esposa. É Natal e Gildo, por sua vez, está na cidade visitando sua mãe, Dona Marta (Cássia Kis Magro). Luzimar, voltando do trabalho em sua furreca bicicleta avista um carro em frente a casa de Dona Marta e encontra Gildo, quem não via desde que Gildo havia ido para São Paulo tentar a vida anos e anos antes. A história se desenrola  a partir daí sem que o espectador tenha qualquer noção do que levou Luzimar a vacilar quando Dona Marta anunciou que aquele carrão do lado de fora de sua casa (um Palio Weekend velho) era de Gildo.

Luzimar e Dona Marta.

 

Gildo e Luzimar claramente têm uma relação de amizade sincera e nostálgica, de quem fez muita merda junto quando jovem, mas é ainda mais transparente o fato de que há algo pairando sobre essa relação. Algo aconteceu no passado desses dois que os abalou profundamente e, de certa forma, moldou quem ambos se tornaram. E isto se torna bem claro na única cena desse filme em que o diretor escolhe te contar com palavras o que está acontecendo.

Eu assisti esse filme no Festival do Rio de 2016, onde ganhou o Prêmio Especial do Júri, exclusivamente por causa de dois nomes: Irandhir Santos e Walter Carvalho. O primeiro, se aqui não está brilhante como acostumei a ver em filmes como “O Som ao Redor”, cumpre seu papel competentemente. O segundo é responsável pela fotografia deste longa e de alguns dos filmes mais essenciais do cinema brasileiro desde a chamada retomada. Filmes como “Central do Brasil”, “Carandiru”, “Madame Satã” e o magistral “Lavoura Arcaica” todos foram filmados por Walter Carvalho.

Assim, por melhores que sejam as atuações de Dira Paes e Júlio Andrade, destaques de um elenco enxuto e competente, a grande estrela aqui é o visual e é este que conta a história. Tomadas feitas com um apuro técnico e artístico ímpares, criando riqueza e pujança visual onde nada há.

Gildo e Luzimar no poteiro

Certa cena é filmada com uma câmera por detrás de uma espécie de cortina de chuva enquanto crianças jogam uma pelada na mesma ponte velha já mencionada aqui. Mesmo quando a ação pede uma explicação, um zoom, qualquer coisa que diga ao espectador exatamente o que está acontecendo ali, a câmera, tinhosa, permanece estática, como que insistindo que não. Que nós, espectadores, não somos estúpidos e não precisamos de tudo explicado e mastigado para entender exatamente aquilo que o cineasta pretende. E isso é extremamente reconfortante, em especial quando este se trata de um filme feito por um diretor oriundo das novelas da Rede Globo.

Talvez por estar contraposto a um visual tão exuberante, a história e o roteiro empalidecem em comparação. Desde o início, fica-se claro que os diálogos servem apenas como um mero complemento à história que as imagens contam. Há situações forçadas, como aquela em que Gildo e Luzimar, para ficar num terreno livre de quaisquer spoilers, meio que invadem uma pelada  no antigo campinho onde eles jogavam as suas peladas quando moleques. Fosse isso em qualquer condomínio, favela ou clube, ambos teriam sido imediatamente deitados na porrada e não saudados efusivamente como foram.

Redemoinho é um filme que se propõe a deleitar os olhos e o faz com maestria, inclusive ao cumprir a cota de mostrar pelo menos um peitinho aparecendo em qualquer filme nacional que não seja do Leandro Hassum. Sua cena final é maravilhosamente anti climática, levando aos belos lábios de Dira Paes um sorriso que, diante de tudo que havia acontecido com ela minutos antes em uma cena de um lirismo sujo, não deveria estar ali. Mas está. E está porque a vida bate… mas também afaga.

 

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