Uma terra assolada por desordem, corrupção e conflitos copiados e colados de Game of Thrones. Ela parecia ter encontrado certa paz, sendo regida por governantes populares que, por acordos multilaterais, levaram o reino à crise.  É nesse contexto que um golpe ocorre. Traindo a confiança de seu soberano, um indivíduo de face rugosa, muito distante de seus melhores dias, toma o poder e exila o herdeiro legítimo. Mal ele sabia que o verdadeiro soberano voltaria para lhe assombrar.

Fui assistir Rei Arthur: A Lenda da Espada por uma dívida. Arrastei meu companheiro cinematográfico, Kid Bicalhus, para o infame Paixão Obsessiva, história já contada aqui. Todavia, não existe almoço grátis, o pequeno Bicalho esperou, esperou, esperou e cobrou sua companhia como um Rumpelstiltskin moderno. Quando percebi, já estava ali, assistindo Rei Artur. Porém, o tiro saiu pela culatra…

Ele jamais poderia prever que Guy Ritchie traria um filme atual, cuja trama ironicamente parece se espelhar justamente no contexto em que estamos inseridos atualmente.  O diretor britânico demostra toda sua (falta de) sagacidade ao inadvertidamente prever acontecimentos futuros de nossas terras tupiniquins.

 

Golpista, legítimo herdeiro, espada que trará a justiça, dama do lago… mesmo disfarçado de folclore medieval, a verdade transparece limpa e casta como a carne de um certo mega açougue nacional. Sim, senhoras e senhores, o rei ilegítimo interpretado por Jude Law, cabe direitinho na descrição do vice Nosferatu brasileira, o que se torna ainda mais nítido pela atuação do britânico, totalmente despida de qualquer carisma ou emoção, tal qual o nosso vampiro.

Mais diretas ainda são as inscrições em Excalibur, na qual olhos atentos conseguem discernir um certo nome esquisito que aparenta ser terminado em “EY”. O Arthur de Charlie Hunnam, por sua vez, é um homem de modos rudes, nascido e criado nas ruas e que, coincidentemente (será?), parece ter problemas com seus dedos. Sim, sim, sim, companheiros.

 

Não para por aí. Ritchie, valendo-se de seus poderes de vaticínio cockney, decide embarcar com tudo, ainda que sem querer, pela sua milionária metáfora do momento político tupiniquim, passando por episódios como o depoimento da Terra Negra (que fica ali no Paraná), o elo entre o déspota e magia negra, um mestre japonês que treina Arthur nas ruas e um ser mitológico, vivendo num fosso, realizador de desejos secretos (já diria James Green)?

Assistir tal ímpar obra é como ver o véu que separa arte e realidade evaporar em um espetáculo que apresenta tantos cortes quanto os braços da menina de 13 Reasons Why.

 

Repleto de mística fútil, adaptações absurdas, personagens de um carisma “suíço”, planos mal elaborados e uma trama tão confusa quanto inverossímil, a nova obra de Guy Ritchie  vive de atos performáticos e esporádicos. Em sua estética boçal, narrativa que indignaria Camus e acting digno de Jean Wyllis (o BBB, não o deputado), Guy Ritchie funde o ruim ao pior.

Assim como o Brasil de hoje, Rei Arthur: A Lenda da Espada não vale o ingresso e pode parecer engraçado para os que estão de fora assistindo o circo queimar, seja de Miami, seja de Avalon. Mas para quem está dentro, seja da sala, seja do país, é sorrir para não chorar.

 

 

 

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