Rifle chegou de forma imponente a mim. Premiado no Festival de Brasília na categoria Melhor Roteiro e Melhor Som, o longa estava entre os selecionados do Festival de Berlim 2017. Além disso, sua temática me chamou atenção por retratar uma problemática histórica: a concentração de terras. Enquanto que em outros países da América Latina isto foi motivo de revoluções e luta (México e Bolívia, por exemplo), aqui no Brasil a pauta assustou e ainda assusta pelas raízes oligárquicas que influenciam a distribuição de propriedades agrícolas. A menção de uma reforma agrária tende a pinicar reacionários e tem sido posta pra escanteio, caminhando a passos curtos.

Mas Dione (Dione Avila De Oliveira) não é nenhum integrante do MST, nenhum consciente trabalhador rural e tampouco revolucionário. Dione não está atuando no filme, apenas passa para imagem o que ele é na vida real: um agente da labuta campestre que quer viver em paz no interior. É por isso que o filme carrega um ar orgânico que dificilmente um ator poderia lhe conceder. Não confundamos má atuação com a meticulosa ausência de carga dramatúrgica. A impressão que tive durante os taciturnos 88 minutos de obra foi de que, por acaso, havia uma câmera ali. Acredito que este seja um elogio: arte crua e espaçosa para que nós, espectadores, coloquemos o que os personagens estão pensando ou sentindo. Muito pouco nos é dado. Dione passa a maior parte do filme num plácido e perturbador silêncio. Por vezes acho que há de sair um monstro de raiva de dentro dele; por outras, duvido que seja algo mais que um moribundo. Mas essas são todas suposições vindas das angustiantes sequências em que nada acontece – será nada mesmo?

“Pra adquirir alguma coisa não é fácil pro homem que nasce pobre, é assim… e ao redor só tem um dono. E tudo é dele.”

O poder do latifúndio ameaça engolir tudo que resta ao redor. Com a aproximação do aparentemente inevitável êxodo rural, o rapaz inicia um processo de escalonamento interno. Se sua indignação não se dá em palavras, mostra-se em atos. Continua soturno, agora acompanhado por um velho rifle que carrega e mira em seus inimigos. Sem nunca mostrar-se instável, Dione transita conforme a vida vai lhe dando espaço, combatendo da maneira que sabe.

O filme traz uma interessante abordagem na questão das estâncias sulistas, assim como pontua belamente a identidade gaúcha através da transmissão de costumes simples e locais. A “falta de técnica” dos atores é o grande espetáculo da narrativa, assim como o silêncio como incentivo à reflexão e a crueza de suas tomadas. Rifle é, por fim, despretensioso e dá passos largos e calmos até culminar em seu ato final. Enquanto história, um reflexo sócio-econômico ainda recente. Enquanto arte, um punhado de belas e lentas tomadas que suplicam por interpretação; um apelo a olhos mais atentos à uma trama dura e isolada.

 

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