Ben-Hur.

É um nome que impõe respeito na História do Cinema mundial. Fala-se este título e logo remontamos ao filme de William Wyler. Mas, antes dele, existiu pelo menos outro: o dirigido por Fred Niblo, uma obra do Cinema mudo de 1925, com o nome completo de Ben-Hur: A Tale of the Christ (em tradução livre, Ben-Hur: Um Conto do Cristo). Além desses, uma minissérie de televisão, datada de 2010, e o recente lançamento do remake, em 2016. Apesar do sem-número de adaptações pela imagem em movimento, o RPR de hoje se aterá tão somente na comparação do grande clássico e a mais nova leitura.

Era 1959 e um épico estonteante do Cinema estreava, contando a história de um jovem príncipe judeu, contemporâneo do Senhor Jesus Cristo. Em gloriosas QUATRO HORAS de filme, acompanhamos uma parte da vida de Judah Ben-Hur (impecavelmente interpretado por Charlton Heston) e como ele saía de um momento de plena prosperidade para se tornar um escravo para depois voltar ao topo, porém com seu ser completamente modificado. O que vemos são transformações do jovem judeu: de um homem tranquilo para um depósito de ódio, mudando para alguém que entende o poder do amor e da Fé. Essa obra grandiosa venceria ONZE estatuetas do Oscar, feito este que seria igualado – mas não superado – apenas quase QUATRO DÉCADAS depois pelo, no mínimo piegas, filme de James Cameron, Titanic; e, mais tarde um pouco, entrando na lista O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, de Peter Jackson.

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Aquele Ben-Hur, portanto, permanece. É uma daquelas obras de Arte que nunca será superada pelo tempo. Os efeitos que seus frames causam até hoje são mágicos. A forma como Wyler dirigiu, como Robert Surtees fotografou, como Heston e Stephen Boyd atuaram. Como ainda se falam das magníficas cenas da corrida de bigas, do ataque às galés, da relação entre os bons amigos Judah e Messala, das passagens de Jesus que, mesmo sem nunca mostrar o rosto, atingem o espectador com tal força! Lembro-me de meu irmão contando sobre essas cenas, quando eu ainda não havia visto: “Vemos a presença de Cristo a partir da expressão de Charlton Heston. E a expressão que ele fez é brilhante!”. De fato! Sentimos a majestosa presença do Messias tão somente pela forma como a cena é afetada. Toques geniais que justificam a presença desta produção em uma suposta Arca de Noé Cinematográfica.

Pois bem. Tudo isso está presente no remake do século XXI, dirigido por Timur Bekmambetov: a corrida de bigas (primeira cena do filme, para, então, ser cortada por um longuíssimo flashback; além de ser o poster da obra, a sequência utiliza muita computação gráfica, vale dizer); as galés (também feita em computação gráfica); a relação dos amigos (aqui, mudada para a de irmãos adotivos); a presença de Jesus (dessa vez com rosto e nome – já que em nenhum momento, o filme de 1959 nomeia o Messias – atuado burocraticamente por Rodrigo Santoro; uma pena, o garoto é tão bom ator). Esses, eu diria, são os principais elementos da história do filme original. Não só para mim, mas para minha mãe, já que é um de seus filmes preferidos – em muito, pela sua paixonite pelo ator principal Charlton Heston, quando ele era aquele garotão exalando masculinidade, é claro. Como disse, estão ali nesta nova leitura. Mas, diferente da realização de Wyler, esta passa batida, não sendo apaixonante, supreendente ou magnífica em nenhum de seus pontos.

O circo de verdade versus um circo falso.

O remake, no entanto, não se limitou a copiar a grande obra-prima. Isso seria por demais ridículo. Há mudanças, cenas adicionadas, acontecimentos iguais, mas com alteração no modo em que se dão. Por exemplo, Judah se casa com sua ex-escrava antes de ser feito prisioneiro, enquanto que no original o casamento ocorre após o seu retorno. Ben-Hur é bem menos religioso e bom de coração, no início, do que o interpretado por Charlton. No novo, não há a amizade com aquele romano que o faz voltar a ser livre; ele deixa de ser escravo quando escapa durante o ataque das galés (tudo bem, este tem duas horas a menos que o premiado filme, é normal que se cortem partes).

Mas, a meu ver, a principal mudança é na relação dos dois: de amigos, eles são feitos irmãos adotivos na releitura da produção. No de 1959, Messala e Ben-Hur são amigos tão próximo que há uma conotação seriamente homoerótica entre eles. Stephen Boyd atua quase “comendo” Charlton com os olhos; o que não foi possível nas interpretações de Jack Huston e Toby Kebbell, já que Messala era irmão adotivo do judeu. A riqueza da construção da obra anterior está presente até em poucas cenas, como a significativa disputa de lanças, objetos fálicos lançados pelos dois em um mesmo alvo, balançando lado a lado, após atingirem seus objetivos. A competição do filme de agora se dá em uma corrida de cavalos (que é o flashback vindo da cena de abertura, na corrida de bigas, anteriormente aludida), quando o Judah se machuca seriamente e o romano salva sua vida (algo que era uma referência em um diálogo do roteiro do século passado) – neste momento, imaginei que o remake trataria de preencher lacunas ou criar em cima de trechos do anterior; mas não. Ainda sobre isso, a motivação de Messala para se separar da família judaica, pela qual tinha tanto apreço, também difere. Nada disso, é claro, é o que faz da produção de 2016 ser pouco inspiradora.

A profunda relação versus uma relação amistosa.

Uma diferença bastante clara e sensível entre ambos é o tom religioso que permeia todo o filme de 1959, o que não ocorre no atual. E isso é bem curioso, pois, como supracitado, neste Jesus tem nome, rosto e diálogos. Mas suas aparições perdem muito em força para aquele Messias sem nome, rosto ou falas. É a construção de Wyler que promove toda a presença majestosa do Cristo. O que é fundamental, pois a história nada mais é do que a de um homem que foi dilacerado de tudo o que tinha (posses, sentimentos, relações), mas encontra a redenção após o seu novo encontro com a Fé, ao conhecer o Salvador. Sua vida só é possível recomeçar quando ele se entrega àquele que dá a Vida Eterna. A evidência disso é ainda maior quando Ele, mesmo após a crucificação e antes da Ressurreição, cura a mãe e irmã de Judah, acometidas pela lepra. Nisso reside toda a beleza e profundidade da obra-prima. O atual limita o “feito” da narrativa a uma reaproximação entre os “irmãos”, fazendo a família ser reconstruída.

“A água que Eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna” (João 4:14)

Infelizmente, a sensação obtida a partir do conto narrado por Bekmambetov não traz essa experiência de Fé vivida por seu protagonista. Muito embora, os personagens estejam ali, os acontecimentos se desenrolem como previsto, as transformações e curas ocorram, sentimos uma história fria, que não surpreende, não apaixona e não nos arrebata. Talvez o que justifique a passagem extremamente apagada deste filme é uma pergunta que me faço constantemente: porque motivos alguém se mete a refazer algo que é irretocável? Qual é o sentido? Qual é o propósito? Refazer a obra mais premiada da História da Academia, baseando-se claramente em seus principais elementos, e não uma releitura completa daquela narrativa? Pra quê? A troco de quê? Parece-me óbvio que a realização de 2016 estivesse fadada ao desaparecimento, desde antes do seu lançamento.

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