De acordo com o planejado – e divulgado na review da semana passada – publicamos o presente RPR envolvendo dois filmes que, apesar de separados por 27 anos, estão conectados pelo mesmo livro que adaptam: A Coisa (It), de Stephen King. Devo, desde já, alertá-los para o fato que jamais li uma palavra sequer da obra literária e que o RPR aqui visa tão somente a comparação (não qualitativa, é evidente) entre as produções audiovisuais. Devemos, ainda, ter em mente que, por vezes, esse paralelo entre ambas pode ser um tanto quanto covarde ou ingrato, visto que o título de 1990 fora feito enquanto minissérie de televisão em dois capítulos, tendo a duração de 3 horas; e o de 2017, como primeira parte de um filme para cinema, com duração de 2h15.

Pelo fato de It: Uma Obra Prima do Medo (de 1990) ser uma obra que se encerra nela mesmo, ele traz a história completa: conta o momento presente, com sete personagens já adultos (auto-intitulados the lucky seven, os sete sortudos, cujos membros são representantes de algumas minorias: mulher, negro, gay, judeu, gordo, gago e quatro-olho-nerd) que se reencontram por conta do reaparecimento de Pennywise, um palhaço detestável que abduz crianças. Um dos sete carrega o trauma de ter o irmão mais novo levado pela detestável criatura pintada, 27 anos atrás (intervalo entre as aparições do idiota circense). Devido a um pacto formalizado àquela ocasião, os ex-amigos voltam à pacata cidade em busca do criminoso aliciador. Isso é contado a partir de flashbacks que se costuram com o que acontece no presente de suas vidas.

Os 7 originais e os 7 atuais, separados por 27 anos.

Em relação a esta narrativa, It: A Coisa (de 2017) se diferencia um pouco. Por se tratar apenas do primeiro capítulo (o que o espectador só fica sabendo após a conclusão), apenas a infância é abordada, quando tudo acontece de maneira muito semelhante: os mesmos sete amigos com as mesmas características (só não se utilizam daquele cognome). Durante esse período, tal qual a obra anterior, as crianças vão sofrendo investidas do fanfarrão sobrenatural. O filme fecha, basicamente, com o aludido pacto e – para aquele que conhece este conto – sabe-se que o capítulo segundo desenvolverá a ideia 27 anos a partir dali.

Quanto aos conflitos de cada personagem, todos mantém o mesmo formato. No de 1990, temos ainda a oportunidade de perceber que, ainda na fase adulta, a maioria carrega reproduções de seus problemas de infância, como se perpetuassem com uma nova roupagem aquele fardo (ou mesmo mantendo-o desde então). E isso é representativo de como somos, em certo grau, os responsáveis por alimentar nosso próprio medo.

No título de 2017, quem se utiliza disso é o próprio Pennywise, criando nas crianças alucinações que correspondam aos seus maiores terrores. Seja na menina que vê uma explosão de líquido vermelho, sinais de uma violação brutal, já que é sugerida uma relação de abuso por parte de seu pai; seja no afeminado, tratado pela mãe como um boneco extremamente delicado, suscetível aos problemas que o ambiente causam na pessoa, que é perseguido por uma espécie de mendigo leproso. Seguindo esta lógica para os demais.

Pennywise, o alvo de nosso ódio, também tem uma realização um tanto diferenciada. Os dois são palhaços, mas a construção de cada qual segue formatos que se distanciam. Não que haja um abismo entre as criaturas, mas me parece bem claro que o Pennywise atual é muito mais um monstro travestido de palhaço, enquanto o de 1990 é algo um tanto mais circense, não deixando de ter suas características bestiais. Ambos muito bem atuados, mas tendo a imaginar que o atual seja menos sedutor, a priori, para uma criança, devido a forma com a qual se apresenta de início, antes de tornar-se um devorador efetivamente. O primeiro me causa mais asco, talvez por ter sido um dos meus formadores de medo na infância e um dos principais motivos pelos quais eu odeio palhaços.

Seja 1990, seja 2017, seja em qualquer homem, palhaços sempre serão detestáveis.

Em termos de estrutura, os dois se diferenciam por serem voltados para mídias diversas: um é de televisão e o outro para cinema. Dessa forma, alguns aspectos visuais serão muito mais delicados neste em comparação àquele. O cuidado é maior também para com os elementos narrativos, fora o fato de o de 2017 ter mais tempo para tratar somente do período da infância, enquanto o anterior precisa dividi-lo com a fase adulta de seus personagens. As gags do remake são mais constantes e, por vezes, resultam numa quebra da tensão criada até ali. O personagem cômico surge com mais evidência do que o seu semelhante original. No entanto, a sugestão de romance entre alguns protagonistas parecem mais destacados 27 anos atrás. Pode ser, porém, que no capítulo 2 (anunciado há pouco) isso surja com mais força. Quando for a ocasião, publicarei o segundo capítulo deste RPR, analisando todo o conjunto.

Não é difícil comparar a conclusão de cada uma das produções, muito embora isso tenha que ficar um pouco de stand by, visto que ainda precisamos do fechamento completo no que se refere à nova releitura. It: Uma Obra Prima do Medo encontra uma conclusão que parece ter saído de alguma outra história, porque é algo que faz muito pouco sentido, chegando a ser meio bizarro para a narrativa como um todo. Apesar de It: A Coisa visitar alguns elementos semelhantes, não incorre nesta solução meio esdrúxula do seu antecessor. Pode ser que ele repita quando surgir o segundo capítulo, mas já pudemos sentir que o remake não envereda por algumas dessas “soluções”: um palhaço monstruoso ser atingido fatalmente por brincos de prata(?!) É sério?! Não, no novo é um espeto de ferro pregado diretamente em seu olho, com violência mergulhada em ódio, como se nos fosse possível atacar fisicamente os nossos medos que, covardemente, se refugiam dentro dos pensamentos, não podendo ser caçados, aprisionados, nem, muitas vezes, destruídos.

Para que uma comparação – que não deve ser qualitativa, como dito na introdução – definitiva seja feita, precisamos, então, esperar pelo segundo capítulo da releitura, ainda que It: A Coisa funcione perfeitamente como um filme pronto, não necessitando de uma continuação para marcar qualquer posição. Mas já que haverá esta outra parte, espero – e ao que parece não será – que não seja daqui 27 anos. Caso contrário, você terá que aguardar o capítulo 2 deste RPR pelo mesmo tempo, é evidente. Tão logo saia a continuação da história, a publicação definitiva será escrita. Enquanto isso, ficamos com duas certezas: ambas as obras tem sua importância em cada época e… eu odeio palhaços!

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