Caros leitores do Metafictions, estou fazendo essa crítica consideravelmente feliz. Primeiro por achar que esse filme seria uma merda inacreditável, tanto que eu iria fazer o Despedida em Grande Estilo. Porém, por uma questão de horário, troquei de filme com Gustavo, o viril, horas antes de ir para o cinema. Para minha surpresa consegui extrair bastante dessa experiência. Segundo, eu amo animação. Fiz a crítica de dois que concorreram ao Oscar 2017 (Kubo e as Cordas Mágicas e Minha Vida de Abobrinha), ambos stopmotions, e assisti a todos os indicados. Ser professor ajuda nesse caso, já que são filmes com temáticas atuais e de baixa classificação indicativa. Infelizmente, não há apelo nostálgico para quem nasceu nos anos 80.

Smurfs e a Vila Perdida é bom? Caso você tenha menos de 10 anos, provavelmente achará bem divertido. No entanto, caso você tenha um mínimo de conhecimento sobre cinema e aprecie filmes tecnicamente bons, certamente achará o filme medonho. Como tive pouco tempo para me preparar psicologicamente para a película, resolvi abraçar a questões filosóficas e leituras que com toda certeza não estavam na mente dos realizadores da animação.

O longa começa com nossos amigos cuidando da sua vida na vila. Vila essa toda padronizada, em formato de cogumelos e nada luxuosa. Vale ressaltar que essa vila é de difícil acesso, um tanto secreta e misteriosa, quase uma cortina de ferro (sim… estou indo nessa direção), sem muita tecnologia, tudo manual e um tanto arcaico. Aparecem então os smurfs, cada um com sua personalidade, atributos e função. Interessante ver que essas três características aparecem em sintonia. Bem, isso me lembra algo. “De cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”. E todos os smurfs vivem sob a tutela e orientação do Papai Smurf (Mandy Patinkin), um sábio que usa roupas vermelhas sangue e com longa barba branca, como nas imagens abaixo.

A animação foca na questão da Smurfete (Demi Lovato), que não possui traços de personalidade definidos e, logo, não tem uma função na sociedade dos smurfs. Obviamente que o catalisador disso tudo é o Gargamel (Rainn Wilson), grande antagonista dos nossos pequenos camaradas irmãos. Foi ele quem criou a Smurfete para se infiltrar na sociedade dos smurfs e revelar a sua localização para ele sequestrar seus habitantes para experimentos científicos, que no caso seria acumular magia (já que os smurfs possuem uma espécie de mojo dentro deles). Ou seja, Gargamel quer concentrar nele algo que é igualmente dividido pelos smurfs.

Que ser ganancioso e sem coração! Que ser pode ser tão vil ao ponto de ligar apenas para concentrar algo em detrimento da necessidade dos outros?

Não bastando isso, Gargamel revela que ela ganhou vida através de um barro (calma, ela não foi cagada), formada de argila. Não foi Adão quem veio do barro? Parabéns aos roteiristas por inverterem a lógica, profanando a família e os bons costumes (mais detalhes sobre a Smurfete e a errônea concepção que muitos possuem sobre ela no vídeo abaixo).

Smurfete então sofre um sequestro relâmpago e durante esse processo ela descobre smurfs vivendo em uma outra vila cuja existência era desconhecida, atrás de um muro gigantesco, na floresta proibida (porra, mergulhe comigo nessa loucura soviética). Sem entrar em detalhes da trama e seu desenrolar, temos a participação das habitantes da outra vila, que funciona de forma semelhante à vila que conhecemos.

Temos que acabar com a revolução gloriosa.

Muito interessante ver questões sobre identidade e nosso lugar no mundo. Questões que de fato angustiam muitas pessoas, inclusive a pessoa que vos escreve. Outra questão interessante é a definição de gênero. De onde surgem os smurfs? São eles todos hermafroditas? São assexuados? Na vila do Papai Marx todos são aparentemente do sexo masculino, menos Smurfete. Ao contrário da outra vila atrás do muro que todos os smurfs parecem do sexo feminino.

Ao final desse belo longa sobre como o socialismo triunfa e destrói a ambição do indivíduo que coloca seus desejos acima do bem coletivo, temos a reunião das vilas numa festa que dá a entender (mentira… não dá, mas que quis entender isso) que irá rolar uma orgia a nível do filme Perfume, nas ruas mesmo. Essas belas ruas simétricas, que nem na URSS…

A nota é realista no entanto

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