“Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não nos saímos de nós, se não saímos de nós próprios”. Essas palavras de José Saramago, em O Conto da Ilha Desconhecida, martelam a minha cabeça desde que comecei a assistir a Sobre Viagens e Amores. E ganharam muito mais força depois dessa pequena – e pequeno aqui é elogio – preciosidade cinematográfica dirigida por Gabriele Muccino, conhecido por ter guiado Will Smith em dois dos seus papéis mais emocionais, em À Procura da Felicidade e Sete Vidas .

Marco e Maria (Brando Pacitto e Matilda Anna Ingrid Lutz – filha, diminui esse nome!) são dois jovens italianos que viajam para os Estados Unidos em busca de novos rumos, descobertas e aventuras. Lá, hospedam-se na casa de Matt e Paul (Taylor Frey e Joseph Haro), um casal gay de São Francisco. A viagem – ou melhor, viagens, já que os quatro embarcam para Cuba em determinado momento do filme – revela-se, então, como o “sair da ilha” de Saramago, uma experiência que muda a vida de todos os envolvidos.

A produção acerta em todos os quesitos, a começar pela condução do gênero. Um “road movie encontra um coming of age”, o filme transpõe para a tela um frescor que combina bem com seu título original, L’estate Addosso, algo como “a chegada do verão”. Aliás, o verão ali são dois: o real e o metafórico, das descobertas dos jovens, do casal, dos equilíbrios instáveis, de quando se decide ser mais que espectador da própria existência. Mas o legal disso é que Muccino consegue criar esse tipo de discussão sem soar pomposo ou manipulador de emoções, defeitos perceptíveis em seus filmes com Mr. Smith. A direção é precisa e, ao mesmo tempo, delicada.

Bravo, maestro!

Muito ajuda na direção o roteiro extremamente bem-amarrado, que consegue transformar situações que poderiam soar banais ou clichês em momentos plenos, relevantes. Até o bilinguismo, italiano e inglês, contribui para que o espectador se sinta imerso na experiência da película, você “desarma” o ouvido e, de quebra, acaba embarcando mais fortemente na história. O clima  “verão da vida” aumenta sua pegada também através da trilha sonora impecável, premiada no Festival de Veneza e capaz de nos levar diretamente ao ITunes para comprar o álbum (já baixei!).

O elenco nos faz pensar em transformar a categoria “Melhor Elenco” em obrigatória para qualquer premiação, não somente o SAG. Que atores! Jovens, lindos e impecáveis. A força que imprimem a suas personagens cria na tela figuras completamente verossímeis, frágeis e fortes ao mesmo tempo, totalmente humanas. É um quarteto que merece todos os aplausos. Brando Pacitto deixa aquela sensação de “nasce uma estrela” e Matilda Anna Ingrid Lutz faz lembrar a força impetuosa de uma Jane Fonda jovem. Você sai do cinema, no mínimo, querendo ser amigo daquelas pessoas.

Sobre viagens e amores é um pequeno filmaço. Quente, forte, bonito. Tal como o verão. Tal como viajar. Tal como amar. O refrão da música-tema resume a sensação: “Antes que o vento nos tire tudo e setembro nos traga uma felicidade estranha pensando em céus de fogo, ai, breve amor infinito, respira esta liberdade”

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