Há algum tempo nós lançamos um CinePigmeu sobre O Código Tarantino (Tarantino’s Mind), o popular curta metragem estrelado por Selton Mello e Seu Jorge no qual os dois discutem uma teoria que liga todos os filmes de Quentin Tarantino. A relevância disso para essa resenha é a de que os diretores daquele curta, Bernardo Dutra e Manitou Felipe, se juntaram em uma só entidade chamada sabe-se lá porque de 300ml e saíram pelo mundo dirigindo várias peças publicitárias conceituadíssimas ao redor do mundo. E é enquanto 300ml que os dois publicitários captaram recursos, escreveram e dirigiram o seu primeiro longa de ficção, Soundtrack, ora resenhado.

A dupla mais uma vez escalou Selton Mello e Seu Jorge para estrelar a obra, tendo ainda a luxuosíssima ajuda do excelente inglês Ralph Ineson. A trama é simples e direta. Cris (Selton Mello) vai para uma estação de pesquisa no pólo sul para realizar um trabalho artístico no qual pretende tirar selfies de si mesmo enquanto escuta músicas, sempre tendo como fundo a imensidão branca de gelo e neve, fazendo, desta forma, uma trilha sonora daqueles momentos, daí o nome do filme.

Ele é recepcionado na estação por Mark (Ralph Ineson), com quem divide alojamento e , Cao (Seu Jorge), Huang (Thomas Chaanhing) e Rafnar (Lukas Loughran), todos cientistas que ali estão por amor e compromisso não só com seu ofício, mas com o mundo.

É no embate entre a arte e a ciência, exibido em geral pelos diálogos entre os personagens de Mello e Ineson, que está o ponto alto do roteiro. Os dois conversam sobre o legado de seus trabalhos, o caráter atemporal que deve permear a boa ciência e a boa arte e, principalmente, a total irrelevância que o reconhecimento deveria ter para ambos. Nesse último tema, destaca-se o breve diálogo que Cris tem com um tripulante do navio que o leva à estação no qual fala-se sobre o mítico, ainda que pouco reconhecido, Louis Thomas Hardin, um compositor, poeta, inventor e musicista americano que fazia a sua arte não pelo reconhecimento, que quase não veio quando ainda era vivo, mas simplesmente porque ele não tinha qualquer outra opção.

Por mais interessante e relevante que seja essa discussão, Soundtrack sofre com um roteiro um tanto caótico, que peca ao tentar imprimir ao filme tons leves, e com uma direção de atores algo frouxa, o que, apesar de não fazer diferença alguma quando Mello e Ineson estão em cena, se torna claro quando os demais atores aparecem.

É de se louvar ainda a produção do filme. O frio do ártico é palpável e o perigo da imensidão é evidente. Acontece que o filme era para ter sido filmado na Islândia, mas acabou sendo na aprazível e quentíssima freguesia de Jacarepaguá no Rio de Janeiro, o que é imperceptível e um ponto positivo. No geral, Soundtrack é um filme interessante, que suscita uma discussão necessária, mas que peca por um preciosismo exagerado.

Vale dizer que o tal trabalho que Cris estava fazendo foi feito de verdade por Oskar Metsavaht, o criador da grife Osklen, que tirou vários retratos de Selton Mello durante a produção do filme e os exibe no Museu da Imagem e do Som de São Paulo até 16 de julho de 2017, podendo o visitante ter a mesma sensação de “trilha sonora” intencionada por Cris.

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