Em fevereiro de 1942, desgostoso com os rumos que sua Europa natal parecia tomar sob a tutela do nazismo, suicidava-se na cidade imperial de Petrópolis o grande Stefan Zweig, escritor de fama internacional e um dos mais conhecidos escritores da língua alemã de todos os tempos. Famoso no Brasil por ter cunhado a expressão “Brasil, País do Futuro”, título de sua obra mais famosa em terras brasileiras e assim entitulada porque ele obviamente não sabia prever o futuro.

Este filme não se presta a fazer uma apologia ou um relato sobre o artista Stefan Zweig, mas, sim, foca no judeu Stefan Zweig, no alemão Stefan Zweig, e, principalmente, no desesperador conflito que este homem carregava dentro de si ao duelar internamente com essas duas características que, no recorte histórico no qual está inserida a obra, subitamente não mais poderiam coexistir.

Por causa do regime nazista e suas políticas antissemitas, Zweig decidiu se auto exilar da Áustria no início de 1934, inicialmente indo para a Inglaterra e depois, quando a II Guerra explodiu realmente, nas Américas, daí o título do filme. A diretora e roteirista Maria Schrader propõe uma discussão do luta interna deste homem que, ao mesmo tempo que sentia um profundo e altivo sentimento de orgulho germânico, base maior do nazi-fascismo praticado na Alemanha da época, era judeu em uma época em que isso era um crime passível de morte em sua amada terra natal.

Zweig sendo recebido pela nata da sociedade carioca… interpretada toda por portugueses.

Nesse sentido, o longa cumpre bem seu papel. Como numa peça teatral, o filme é passado em cinco atos, em praticamente 5 cenários diferentes, 3 no Brasil (Rio de Janeiro-RJ, Cachoeira-BA e Petrópolis-RJ), um em Buenos Aires e um em Nova Iorque, deixando clara a deterioração emocional e psicológica de Zweig com tudo que acontece na Europa enquanto ele é festejado por sua obra no Novo Mundo. Josef Hader, na pele do escritor, consegue passar muito bem a sensação de conflito interno, cumulada com desespero por quem ficou e alívio por não mais estar lá.

O filme peca, contudo, pela monotonia, pela ambientação e pelo fato de que se torna um tanto quanto inacessível para um sujeito que não tenha noção do contexto histórico no qual aquela história está inserida. O roteiro é inclemente nesse sentido. O espectador é obrigado a saber de detalhes específicos sobre o pan germanismo, sobre a biografia de Zweig e sobre a verdadeira diáspora de judeus que se instalou na Europa da II Guerra.

O conflito toma conta de um sujeito confrontado por sua ex mulher.

A monotonia e a confusão na cabeça de um sujeito mais ignorante dessas questões é tanta, que um senhorzinho de seus 80 e muitos anos que sentava atrás de mim e que havia ido ao cinema com seu filho de 60 anos ficou puto em determinado momento, levantou-se e, daquele jeito gostoso que só uma pessoa com mais de 80 anos é capaz, exclamou para a sala toda que aquilo ali se tratava de “um filme chato pra caralho”, enquanto se apoiava em sua bengala para sair da sala ainda sem que tivesse se passado 2/3 do filme. Ao final, um sujeito com cara de quem deveria estar na sessão de Velozes e Furiosos 8 parafraseou o senhorzinho ao dar sua opinião sobre o filme a sua mãe que o havia acompanhado ao cinema.

Para minha sorte, eu ainda sei alguma coisinha dessas questões, em especial porque eu já estive na casa de Stefan Zweig em Petrópolis, o local onde ele tomou uma overdose de barbitúricos com sua esposa, Lotte, e que hoje serve como um centro cultural dedicado à sua obra. Mas, mesmo assim, tive alguma dificuldade em acompanhar algumas informações.

O que mais me incomodou, contudo, foram as escolhas de elenco, ambientações locações. São 5 atos e os 3 passados no Brasil me incomodaram sobremaneira. Primeiramente porque escalaram vários atores portugueses para interpretar personagens brasileiros e, em segundo lugar, porque filmaram cenas em uma plantação de cana de açúcar e outras nas ruas de Petrópolis na antiga colônia portuguesa de São Tomé e Príncipe.

Essa beleza tropical é, segundo o filme, Petrópolis.

Sendo brasileiro, escroto e frequentador de Petrópolis, isso me incomodou demais. A tentativa de emular um sotaque brasileiro falha miseravelmente em todos os personagens, à exceção de dois, que, por acaso, são interpretados por brasileiros radicados em Portugal. A ambientação de Petrópolis é tão absurdamente diferente do que se vê na cidade imperial, em especial do local onde morava Zweig, que eu fui removido quase que completamente da imersão do filme em seus momentos de clímax.

É um filme regular, que se torna excelente se você for fã de Stefan Zweig, imagino eu. Como eu não sou e como sou fã mesmo é de Petrópolis, minha nota não poderia ser diferente dessa.

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