Trainspotting é uma obra que me vem a mente sempre fragmentada. Não me recordo onde, como ou quando a assisti pela primeira vez, todavia as memórias do filme que lançou Ewan McGregor ao estrelato sempre emergem quando vejo uma privada fodida, um bebê ou seringas. O longa de Danny Boyle até hoje me fascina com seu hedonismo e decadentismo destilado em cada miligrama de heroína. Fato é que o filme marcou época, se tornando fenômeno cult, amplamente cultuado por seu canal direto de comunicação com uma geração de jovens pós guerra fria, com os ideais esfacelados e ímpetos selvagens de autodestruição. A película é daquelas sagradas, que com toda certeza renderá um “Assista!” no Metafictions. Então qual a necessidade de uma continuação 21 anos depois?

T2: Trainspotting é digno de seu antecessor, trocando a ousadia e chama da juventude pela nostalgia e tragicomédia da meia idade. Sem se esquecer do humor. Com todos os seus protagonistas de volta, a obra é uma revisita àquele mundo subterrâneo que adquiriu novos traços menos pulsantes, mas igualmente melancólicos. Com uma montagem primorosa, fotografia certeira, direção forte e trilha sonora mais uma vez ousada e acertada com música alternativa, eletrônica e, claro, punk rock. A sequência da obra prima de Boyle é a continuação que Trainspotting merece, apesar de não precisar.

“Viver é envelhecer, nada mais” -Simone de Beauvoir

A trama é simples, um aparentemente bem sucedido Mark Renton (Ewan McGregor) retorna a sua cidade natal para o enterro de sua mãe. Dali para frente reencontra seus velhos comparsas, de sonhos despedaçados, abismos crescentes e desejos de vingança latentes. A narrativa de T2 não é das mais inspiradas, porém a mensagem ali contida vale o ingresso. O filme passa por consumismo, artificialismo e foca principalmente nos sacrifícios que chegam com a idade e a nostalgia para com o passado, que na memória fica muito mais brilhante e heróico do que de fato foi.

Ewan McGregor entrega um Renton mais contido, que conduz a trama sem os mesmos monólogos vibrantes, porém compensa com sua relação densa com o Sick Boy, agora Simon, de Johnny Lee Miller. Robert Carlyle interpreta um Begbie igualmente ameaçador e psicopata, infelizmente um pouco vilanesco demais, entretanto, tem seus momentos de humanidade na companhia de sua família. Ewen Bremner por sua vez brilha num Spud que resume o filme, em sua aparência desajustada, com roupas modernas que não se enquadram em sua silhueta do passado.

O tempo passa, o tempo voa e até a poupança Bamerindus faliu.

Todavia, nem tudo são flores, a narrativa é extremamente previsível e não chega nem perto de ter o impacto do primeiro, o que já era esperado. Mesmo muito bem filmado, o filme tem apenas uma cena de fato antológica. A real complicação no entanto é a adição de uma búlgara, que move a trama num triângulo amoroso desagradável e sem sal.

T2 é turismo por um passado de prazer e dor, último respiro de um mundo tão doente quanto fascinante. Retrato de um presente de onde não há fuga em que os trens partem independentemente de seus passageiros. Não há mais como contemplar a heroína traçando trilhos sob as veias. É necessário preencher o vazio com outras coisas e continuar pagando as contas. Os decadentes morreram e os sobreviventes agora sofrem as consequência por escolher a vida. Mas enquanto “Lust For Life” de Iggy Pop continuar tocando, ficará tudo bem.

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