Areia era poeira em seus olhos
Praia se perdia no irresistível contato
Com o horizonte, já fragmentado entre ondas
Peregrinos esquecidos do amanhã
O físico ali parado
Como uma esfinge entre Gizé e Quéops
O filho do poeta se aproxima
-Deus existe?
O físico hesita
Pensa nos átomos
Núcleos e eletrosferas
Na dimensão de tudo que conhece
E de tudo que não poderá conhecer
-Sim.
Zarathustra desceu a montanha
Ou a montanha desceu Zarathustra?
Evangelho apócrifo
As palavras de sangue foram cravadas
Arpão de apostasia
O que restava de fé em mim se foi
deus morreu, eu ainda não tinha forças
Para entender o super-homem.

Andrei Tarkovsky nasceu em 1932
Já na maioridade de um século que viria despir
E cuspir na espiritualidade do homem
Criado longe de Moscou
O campo dele confiscou os trejeitos de sua própria época
Dos versos de seu pai se alimentava
Das atuações da mãe ria
E pela natureza soviética vivia
Em 1937 o patriarca partiu
1941, guerra eclodiu
Fugindo, indo, vindo
Andrei parou em Moscou
Parecia predestinado
A chafurdar nos edifícios altos
Protegidos por fuzis de assalto
Manchados pela impessoalidade e desprezo
De uma cidade que naufragava nas próprias contradições
A escola frequentou
Até por Árabe se interessou
No metalismo entrou
Mas quando passava pelo rio Kureikye
O movimento das águas se expressava
De tal forma que não foi capaz de ignorar
Sua vocação
Pelo cinema optou.

Uma nova geração de cineastas aos poucos ganhava asas
Apesar de todas as adversidades
O sangue de Eisenstein pulsava
E foi crescendo, crescendo
Dali para frente tomou forma
Em um filme dividido em 7
Não era mais o filho do poeta
Nem a criança das matas de Yuryevets
Era membro do inferno de Tolstói
E do subterrâneo de Dostoiévski
Escultor do tempo
Começava a esculpir a si mesmo

Impossível dizer quando
Onde ou como
Mas Tarkovsky viu
E não omitiu
O vazio que se abria
Rachadura que crescia
Corrompendo os confins espessos da alma
Na era da psicanálise
Materialismo dialético
E revolução do proletariado
Andrei quis ópio
Contra Marx
Contra Mises
Contra todos
Tarkovsky buscava Deus
Em todas suas tomadas
Tão estudadas e estimadas
O russo garimpava seu senhor
Atirava pedras naqueles que se entregavam
A um mundo sem fé
Sem nada

 

A vela sobrevivendo aos ventos
Zona que lhe concede um pedido verdadeiro
Casa que queima
Quase sem fazer barulho
Sua câmera
De fotografia escura
E lápis
De esboços puros
Declaravam guerra
A sua pátria e a todos as outras
Uma batalha eterna contra o homem moderno
Que habita o coração vibrante
Do mal do mundo
Exilado
Excomungado
Detestado
Não importava
De sua luta, Andrei não se cansava

Conheci sua obra por puro acaso
Sorte nua e crua de minhas orelhas
Que nem lembro onde, captaram
2001 é bom, mas Solaris é melhor
E não pude me conter
Pelo filme do soviético procurei, corri e finalmente encontrei
Dali para frente não consegui parar
Porque com seus gestos modestos
Narrativas confusas
De homens e mulheres profusos
Ele me preencheu
Naquele tempo tinha deixado a religião
E deus é distopia desde então
Mas seja em Solaris, Stalker ou Nostalgia
Andrei me concede uma missa
A cuja oração eu não ajoelho, sento ou finjo de morto
Somente vibro.

Em seu último filme
O Sacrifício
Protagonista relata a seu filho
Conto do pobre monge
Que dia após dia
Noite atrás de noite
Carregava baldes de água para irrigar uma árvore morta
Seu corpo decrépito mal aguentava
Mas continuava
E por muito tempo
Foi e voltou, sem nada
Até que numa manhã, fez o mesmo longo percurso
E já não se via árvore morta
E sim uma conífera repleta de folhas
Nessa simples história
Tarkovsky definiu o que temos de melhor
Não se trata de amor, paixão ou paciência
Apenas fé.
Sentimento que ele mal poderia imaginar
Ser capaz de reinflamar
Num jovem moleque tupiniquim
Que não voltou a acreditar em um deus onitudo
Nem em Jesus, Maria e José
Porém se entregou
Ao cinema poético
Que constrói seus versos em imagens
Lapidando suas estrofes na crítica aos homens e mulheres
De um mundo entre o barroco e o oco
Silenciosamente
Esculpindo o tempo
Para que ele não se perca
Para que ele não se venda
Para que ele seja lembrado e reproduzido
Até aquela fenda
Ferida, aberta e perpétua
Se cauterize
Para finalmente o projetor quebrar
Porque dele, não mais iremos precisar
Assim, Andrei em paz irá descansar

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