“O importante é se divertir.”

Junto com “Thomaz, levanta a tampa da privada!” essa é sem dúvida a frase que mais ouvi em minha curta existência. Sempre proferida na voz pausada e levemente grave do ser humano que convenientemente chamo de pai. A síntese perfeita da filosofia de vida dele.

“Não importa o que faça, sempre se divirta.”

Ele fala isso como a naturalidade de um Confúcio tupiniquim, logo depois acaricia a barba de final de semana e traga seu charuto. Enquanto isso o vento bagunça o que restou de seu cabelo. Essa cena se repete por tantos domingos que parece programada. Talvez ele continue repetindo, porque eu continuo não cumprindo seu ensinamento. Tantas angústias, desejos e aflições, é difícil se  lembrar de aproveitar o tempo que temos nesse planetazinho azul.

Quando Toni Erdmann terminou, observei atentamente os créditos em busca do nome de meu pai, talvez como fonte de inspiração ou roteirista. Obviamente, ele não estava lá. Mesmo assim, a história de um senhor cujo humor beira a vergonha alheia, sempre tentando arrancar um riso das faces sisudas da modernidade e que vai visitar sua filha robótica em seu trabalho é a parábola perfeita dos quixotes do divertimento.

Ines (Sandra Hüller) é profundamente infeliz. Presa numa realidade cinza, na qual trabalha sem parar, ela é sufocada por relações líquidas e percorre seu caminho pela trilha do universo com o único propósito de conseguir uma promoção de emprego. Em contrapartida, apesar da profunda solidão, seu pai, Winfried (Peter Simonischek) lida com a vida de forma leve, sempre tentando amenizar a dor do dia a dia. Com uma peruca desgrenhada e uma dentadura bizarra, ele simplesmente não se leva à sério, inventando alter egos bisonhos como Toni Erdmann. A filha não suporta essa maneira peculiar do pai de encarar a vida. Tudo isso leva a um afastamento. Na tentativa de impedir tal fenômeno, o simpático senhor viaja para Bucareste, onde Ines trabalha como executiva e coloca toda sua energia em alegrar um mundo tão sintético como o de sua filha.

A película poderia muito bem ser mais um mela cueca, cheio de clichês e gatilhos para emocionar. Todavia, felizmente, assim como seu protagonista, o filme é do início ao fim sincero e criativo. Não se propõe a melodramas ou momentos feel good. Muito menos a uma afetada odisseia filosófica pelo sentido da  vida. O que temos é um estranho embate de duas maneiras diversas de ver o mundo, tentando se conciliar e se anular ao mesmo tempo. Tudo temperado com um humor nonsense, uma câmera crua e cenários em sua maioria densamente urbanos. Além de, claro, uma sensível relação de pai e filha.

Winfried e seu bisonho alter ego Toni Erdmann desmascaram uma realidade melancólica, repleta de adultos carrancudos, cuja única ambição se resume a busca incessante por poder e dinheiro. A presença de uma figura tão peculiar vai despindo seus arredores com um carisma ímpar, até que no final não sobra nada além de um abismo existencial. Nada disso seria possível se não fosse pela avassaladoramente cômica atuação de Peter Simonischeck, que personifica o fanfarrão, com um jeito naif romântico. Sandra Huller, por sua vez, concede caráter e dignidade a Ines até nos momentos em que a personagem fica na beira do desespero, sozinha, vendo seus sonhos mesquinhos desabarem junto a seus seios e juventude.

Nos gestos, olhares e diálogos, o filme carrega uma melancolia sombria. Em suas situações inusitadas e criativas, dá vida a um humor extravagante, raro e peculiar. Não é um filme para todos, o aspecto estranho do protagonista, longas 2h e 42 minutos e jeito inusitado pode tornar a experiência árdua para alguns.

Nada disso atrapalhou minha experiência. A única coisa que me incomodou a cada instante foi a memória daquele charuto, daqueles domingos e daquela maldita frase. Tony Erdmann prova que num mundo tão artificial, as coisas mais reais podem ser perucas, dentaduras, risadas e a relação com os seres que não escolhemos, mas conhecemos desde sempre. Acima de tudo pelo retrato das vidas sem sentido de esporádicas e falsas alegrias, da amargura em que pode se converter viver sem prazer, a película da diretora Maren Ade mostra que talvez, apenas talvez, meu pai esteja certo.

Sugestões para você: