Tour de France não é um filme sobre ciclismo. Essa foi minha primeira surpresa, esperei pelas bicicletas por toda a exibição da obra, mas elas não vieram. O que veio foi uma história de empatia, encontros e desencontros permeados por humanidade. Uma bela parábola sobre a febre do preconceito, causada pelo ódio do velho contra o novo e vice-versa. Como todo problema dessa espécie trágica causado pela falta de entendimento. Câncer eterno da comunicação.

Serge é o típico europeu do interior. Bochechas robustas, ralos cabelos loiros e rasas piscinas azuis nos olhos. Acima de tudo manchado pelos traços das fobias modernas europeias:  islamofobia e xenofobia. Mas é um homem sensível, de passado rebelde, fascinado pelos quadros de Vernet. É por essa alma artística que parte para sua peregrinação, refazendo a jornada de seu pintor favorito por todos os portos da França. Seu acompanhante seria seu filho com quem estava recém conciliado, vindo de uma relação conturbada graças a uma conversão da cria ao islamismo.

Todavia, por um desses absurdismos da estrada da vida, um rapper, amigo de seu filho termina por ser seu acompanhante. Far’Hook (Sadeké uma estrela em ascensão dos subúrbios de Paris, capaz de elaborar críticas políticas e sociais com suas rimas. Contudo, devido a uma inveja de bairro, precisa se afastar de sua morada após atentarem contra sua vida. Nesse contexto termina como chofer de Serge, pai de seu amigo e produtor.

Dessa maneira se constrói o contexto de encontro da velha França, na figura do homem branco sempre acompanhado por seu rádio assolado por propagadas de Le Pen, e a nova França, encarnada por esse rapper, filho de imigrantes, com a companhia de seu smartphone.

O que começa tenso, termina com uma bela conciliação entre o tradicional e o moderno. Na road trip em busca dos portos pintados por Vernet a humanidade vai se revelando em ambos os lados e a cortina de estereótipos vai se dissipando. Acima de tudo, aponta que o único caminho para a tolerância e coexistência é o diálogo aberto e irrestrito.

O ódio é um espelho coberto, Tour de France é um exercício de beleza para queimar esse tecido e revelar um lado da moeda ao outro. E assim os mesmos descobrirem que são desde sempre semelhantes. A distância entre nós é apena um fruto do desconhecimento.

Apesar disso o ritmo cansa e, às vezes, na ânsia de se fazer compreendido, o filme se torna profundamente repetitivo quanto à mensagem que tanto deseja passar. A direção também poderia ousar mais, em vez de de seguir o protocolar e sutil estilo sensível francês.

Apesar disso, com belas imagens e uma atuação sutil e sensível de Gérard Depardieu, a obra se revela um relevante conto moderno sobre descobrimento de si mesmo no outro.

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