Entre os muitos sonhos de um mundo mais harmônico e delicado, está o de um tratado de paz entre os críticos e o público. Um momento mágico em que nós nos abraçaríamos, sorriríamos uns para os outros e diríamos: “Que filmaço, amigo! Somos abençoados por poder assistir juntos !”. Seriam tempos de beleza. No entanto, as franquias “Velozes e Furiosos” e “Transformers” continuam impedindo que este dia chegue. Não, o armistício entre crítica e fãs não será assinado em Transformers: O Último Cavaleiro.

O plot da “obra” é um pouco confuso, mas, acredite, o resumo dele vai ser a coisa mais organizada que o espectador terá acesso nos intermináveis 149 minutos de exibição: Autobots (carrinhos do bem) e Decepticons (carrinhos do mal) estão em guerra. No meio disso, os humanos. Cade Yeager (Mark Wahlberg, retornando ao personagem do filme anterior), inventor e pai solteiro, está ao lado dos Autobots. Dessa vez, no entanto, ele conta com a ajuda de Sir Edmund Burton , um aristocrata inglês especialista na história dos Transformers na Terra, interpretado por um outro Sir, Anthony Hopkins, e Vivian Wembley, historiadora, descendente de uma ordem secreta, inglesa de sotacão, linda, que cria a tensão sexual, atração/repulsa com o mocinho/zangado/duro por fora, coração bom por dentro (nós ainda precisamos desse tipo de representação feminina?) feita por Laura Haddock. Ah, Optimus Prime está sumido porque foi buscar suas origens.

E onde, diabos, entra o último cavaleiro do título? Pois bem, surpresa! O filme busca suas raízes na Idade Média, berço do primeiro contato entre humanos e Transformers. Os carrinhos ajudaram o Rei Arthur e os cavaleiros da Távola Redonda. Aliás, eram eles a “magia” de Merlin (Stanley Tucci), que, na mitologia Michael Bayana, era um alcoólatra charlatão sem poderes. Essa é a deixa para o surgimento – música de abertura de Game of Thrones – de um dragão Autobot!

De resto, a produção chafurda em um vazio tedioso que deve ser metáfora para alguma coisa que não percebi. Cada frame embarca em uma pirotecnia (literal e visual) que tenta, mas não consegue, esconder as fragilidades de um roteiro quase que inexistente. Famosa por suas explosões e competentes efeitos sonoros, a franquia abusa tanto dos efeitos aqui que eles reverberam nulos e não surpreendem. Retirem os barulhos, onomatopeias e explosões da história e você ganhará um curta-metragem tedioso com uma fala final risível de tão brega.

Em sua obra clássica O Sentido do Filme (dica Metafictions obrigatória em qualquer biblioteca de estudiosos do cinema), Sergei Eisenstein, ao falar sobre a montagem (ou edição), afirma que esta cria uma magia: dois pedaços de filme, quando justapostos, criam um novo conceito, uma nova qualidade. Produções como Transformers: O Último Cavaleiro deveriam ser, já na concepção, um playground delicioso para um editor, tamanha as possibilidades de experimentação que o gênero e o orçamento permitiriam. Infelizmente, o que é entregue é um caos, uma cena entrando na outra com a sutileza dos ataques convulsivos. A direção mão-pesada de Michael Bay só evidencia o oco conceitual do filme.

No campo das atuações, não há o que destacar. Os atores tentam tirar um leite inexistente de uma pedra muito pedra. Como amante do cinema, me dói não ter algo mais profundo a escrever sobre um trabalho do grande Anthony Hopkins. Aliás, uma coisa precisa ser dita. Que arda no círculo destinado aos roteiristas no inferno aquele que fez Anthony Hopkins falar isto: ‘But you want to know, don’t you, DUDE?” .

A bandeira branca da paz foi erguida, mas Michael Bay na sua sanha patológica de explodir os monumentos do mundo ateou fogo nela. Dessa vez, junto com Stonehenge. Mas, como muitas  continuações da franquia já estão garantidas, quem sabe ainda dá tempo?

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