Ove (Rolf Lassgårdtem 59 anos e está puto de sua cara porque tem um cupom que lhe permite comprar uma rosa por 35 coroas, mas a caixa do mercado lhe diz que aquilo só é válido se ele comprar duas rosas. Ove acaba de ser demitido do único emprego que teve por 43 anos. Ove não tem a menor paciência para o monte de crudelíssimos eufemismos que os jovens gerentes tentam usar para explicar a demissão. Ove pergunta se não seria mais rápido e fácil se ele simplesmente se levantasse e, em suas palavras, desse o fora dali. E assim o faz, mas não sem antes receber uma “belíssima” pá, como presente de despedida pelos 43 anos de serviço.

Neste filme sueco, dirigido e escrito por Hannes Holm e baseado no best seller de Fredrik Backman, conta-se a velha história do Senhor Wilson, o vizinho chato, velho e rabugento de Dênis, o Pimentinha, mas feito de forma sueca. O que isso quer dizer é que os flashbacks desse tipo de filme, onde o personagem do velho rabugento é desenvolvido, ocorrem quando Ove, em seu terno com as cores da bandeira sueca, tenta se matar repetidas vezes, sempre falhando por culpa alheia, em geral por causa de seus novos e barulhentos vizinhos. A cada uma dessas vezes nos é aberta uma janela para dentro do passado de Ove, desde sua infância até o momento em que sua esposa morre.

Para Ove, o suicídio é apenas uma maneira de voltar a se encontrar com aquela que foi sua razão de viver por tantos anos. Não há qualquer discussão religiosa em sua mente sobre a danação que é o suicídio, o que é extremamente apropriado para um país altamente ateísta como a Suécia. Há apenas o evangelho do amor, dedicação e verdadeira devoção que Ove sempre teve a sua esposa. Sem aquilo, Ove vive apenas por causa do senso de dever ao seu trabalho, que logo lhe é extirpado, e à sua comunidade, o que também lhe é tirado por meio de um um golpe de estado na vila de casas onde mora, sendo deposto como o “síndico” do lugar.

Ove visita sua falecida esposa em seu conjuntinho tom sobre tom.

Eventualmente, uma família nova se muda para uma casa em frente, o que não abala em nada sua resolução em se matar e voltar à companhia de sua esposa. Muito pelo contrário. A nova família representa a mudança que Ove não quer para si, para sua vila e para seu país, uma vez que se trata de um sueco casado com uma iraniana. A certo momento, Ove reclama no túmulo de sua esposa que a comida de Parvaneh (Bahar Pars) tem sabor demais, bradando a plenos pulmões que não há nada de errado em se comer carne com batata. Ove não é racista, mas apenas avesso a mudança que a família de Parvaneh representa.

Bahar Pars, que interpreta Parvaneh, é o destaque do elenco aqui, abrilhantando cada cena em que aparece e sempre conferindo alguma verossimilhança a situações estapafúrdias, como quando ela, recém chegada a vizinhança, convence um homem como Ove a lhe ensinar a dirigir. O mesmo não ocorre em várias outras situações forçadas e inverossímeis, incluídas no roteiro como uma espécie de escada para o desenvolvimento da jornada do protagonista.

“Não me encham a porra do saco!”

O fascínio com a morte, temática tão recorrente no cinema sueco e escandinavo em geral, consegue andar lado a lado com a comédia e momentos de pura ternura. Não são poucos os instantes em que as interações entre Ove e sua esposa ou com os filhos de Parvaneh trazem lágrimas aos olhos, muito embora aquilo só seja possível pela total falta de vontade de viver de Ove.

Este filme está concorrendo, com justiça, ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2017 e de melhor maquiagem, o que, confesso, eu não faço ideia do porquê. Na pele de Ove, Rolf Lassagard, que hoje tem 61 anos, usa alguma maquiagem para esconder sua vasta cabeleira. E só. Considerando que o ator que o interpreta tem praticamente a mesma idade, o trabalho de maquiagem não deveria ter sido tão pesado, o que acaba por conferir a Ove o aspecto de um velhote de seus 70 e poucos anos.

Trata-se de um filme para toda a família ao mesmo tempo que não o é. E isso é uma perfeita analogia para quem é Ove.

Ove é ranzinza, rabugento e cri cri até não poder mais. Ove é, em suma, um escroto (e de ser escroto eu entendo). Mas, apesar disso (e talvez justamente por isso), Ove tem um coração gigante que mal é capaz de conter todo o amor que tem dentro de si e, embora o mundo, segundo Ove nos lembra a todo momento, esteja cheio de idiotas, amá-los ainda é a melhor opção.

 

 

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