Selecionado para a mostra oficial de Cannes, o novo filme de Nicole Garcia traz os dramas de uma mulher humilde e fogosa, em um pequeno vilarejo do Sul da França. Uma jovem problemática que permanecerá como alicerce de uma adulta do mesmo modo intranquila. Será que o tempo é capaz de nos mudar? Será que somos, de fato, os atores de nossa própria vida? Um Instante de Amor vai até as profundezas de uma mente conturbada para narrar uma história de contrastes e antônimos.

Gabrielle (Marion Cotillard) é a referida senhorita (e se tornará senhora ao longo das 2 horas de sequências), que guarda uma ardente paixão por um professor casado e mais velho. Suas investidas não são nada sutis e seus sentimento deveras aflorados. O docente guarda invejável lealdade pela sua família ainda em construção e não dá ouvidos às apaixonadas declarações da garota. Muito embora Gabrielle seja desejada por quase todos daquelas pacatas terras europeias. Para seu desespero, tem que conviver com essa dor emocional (além da dor física que a acomete de tempos em tempos).

A fogosa Gabrielle, carente de amor.

No contexto histórico pós-II Guerra Mundial e durante a Guerra da Indochina, ela é obrigada a se casar com José Rabascal (Alex Brendemühl), um sério, mas adorável, catalão morador da região. Apesar da cerimônia se consumar, a nova senhora Rabascal é como um animal feroz e indomável e a relação construída entre os dois é completamente sem amor. Surge, nesse momento, a beleza do personagem de José, que, por paixão (ou comodidade; ou necessidade; ou desejo; quem sabe?), aceita todas as loucuras daquele donzela feita de ferro. No entanto, as coisas mudam quando ela é internada em uma instituição para tratar do seu problema físico (pedra nos rins – daí a referência no nome original dessa obra), onde conhece um soldado machucado pela guerra supracitada, André Sauvage (Louis Garrel). Gabrielle nutre profundos sentimentos pelo ex-combatente tão logo repousa os olhos nele. Seria o tempo trazendo de volta o amor não correspondido de outrora? Seria apenas uma saída para o seu fracassado relacionamento? Seria a expressão máxima da carência de uma pessoa?

O tempo passa, mas não leva os conflitos embora. Traz novos. Repete antigos. Renova outros tantos. Teria o destino dado a resposta para a livre mulher, há anos em busca da verdadeira experiência amorosa? Ou seria ele apenas um jester, um zombeteiro, a brincar de forma detestável com as fraquezas de um indivíduo ferido? Como se relembrando que cada parte dele está ligada por um fio controlado por esta mão invisível, que dirige sua vida.

Entre os escombros interiores.

Nicole Garcia realiza uma obra sóbria e sucinta, sem grandes alardes. Constrói um castelo que parece firme, mesmo sem seus próprios personagens confiarem na firmeza de suas ações. Conta com a sempre maravilhosa Marion Cotillard, mas que não apaga a luz dos demais atores. É um filme sensível e, apesar de parecer constante a todo instante, nos deixa mergulhados em perguntas. Como dito durante a introdução, é uma história de contrastes e antônimos, o que pode ser até constatado na relação dos títulos em português e em francês: Um Instante de Amor como a tradução para Doença de Pedras (Mal de Pierres).

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